Longen aplica bem… só o dinheiro no banco

Quando se fala em má gestão de recursos públicos disfarçada de “boa administração”, poucos exemplos são tão didáticos quanto o da Fiems sob o comando de Sérgio Longen. Entre 2018 e 2022, a entidade que deveria servir aos trabalhadores da indústria — com formação, bem-estar, capacitação e qualidade de vida — decidiu servir a si mesma: enquanto deixava os trabalhadores esperando por benefícios, aplicava milhões em investimentos financeiros, como se fosse uma holding de luxo com fins lucrativos.

A Controladoria Geral da União escancarou o problema em um relatório detalhado divulgado em julho de 2024: dinheiro público, oriundo de contribuições sociais, estava parado, rendendo em bancos, enquanto o programa de gratuidade do Sesi patinava com investimentos tímidos, quase simbólicos. De R$ 131 milhões aplicados, apenas R$ 48 milhões chegaram aos trabalhadores. O resto ficou quietinho, gordo e rentável nos fundos de aplicação.

Ou seja, o Sesi virou cofre, não solução. A entidade, que pela sua natureza jurídica não pode ter fins lucrativos, parece ter se esquecido da própria razão de existir: reinvestir o que recebe da sociedade em benefícios sociais. Longen, no entanto, preferiu o caminho da inércia polida: segurou o caixa, paralisou ações e jogou no mercado financeiro, enquanto trabalhadores da indústria seguiam sem acesso a serviços gratuitos que poderiam melhorar suas vidas.

E como se não bastasse a omissão prática, a justificativa beirou a ficção burocrática: não existe norma que regulamente o uso dos superávits, logo, ninguém sabe, ninguém viu, e ninguém faz. É a arte de governar por omissão planejada, onde o silêncio administrativo vira escudo contra a responsabilidade social.

A CGU, no relatório, mandou o recado com todas as letras: a Fiems precisa criar um plano de aplicação com critérios objetivos e começar a cumprir o mínimo de sua função social. Mas a pergunta que fica no ar, quase um sussurro cínico entre corredores e contas bancárias: por que gastar com o povo se o dinheiro rende mais parado?

Sérgio Longen, que posa de gestor eficiente, entrega muito pouco a quem deveria ser o foco da atuação institucional. A prioridade da sua gestão parece ser a estabilidade do fundo, e não a transformação social. E nisso, a entidade vai se afastando da sua missão original, enquanto empilha relatórios vistosos, imóveis alugados e saldos milionários.

É quase um milagre reverso: quanto mais dinheiro entra, menos chega a quem precisa. Uma matemática da omissão que só faz sentido quando os números são mais importantes que as pessoas. E o mais preocupante: tudo isso com o selo de “legalidade”, mas sem um pingo de legitimidade social.

A Fiems, sob Longen, virou um modelo, mas modelo de como não fazer gestão pública com responsabilidade social. E se a desculpa for que “está tudo dentro da lei”, a pergunta que fica é: qual lei permite ignorar quem mais precisa e transformar contribuição obrigatória em fundo de investimento particular?

Afinal, enquanto os trabalhadores esperam por gratuidade, capacitação e apoio, o único setor que realmente se beneficia parece ser o extrato bancário da entidade. Porque sob Sérgio Longen, o Sesi aplica, mas aplica onde mais rende: nos juros.

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