Investimento recorde em saúde que ninguém vê

A Prefeitura de Campo Grande comemora com pompa e circunstância o suposto maior investimento da história na saúde: R$ 917,7 milhões em 2024. O número impressiona no papel, mas para a população que enfrenta filas intermináveis, exames que nunca chegam e unidades superlotadas, o recorde soa como piada de mau gosto. É a matemática do poder público que, quanto mais milhões divulgados, pior fica o atendimento.

Segundo a Planurb, os investimentos cresceram 18,3% em relação a 2023. Mas basta um campo-grandense colocar os pés em uma UPA para perceber que o aumento só aconteceu nos gráficos coloridos dos relatórios oficiais. Na vida real, pacientes continuam deitados em macas nos corredores, disputando espaço com outros doentes e esperando horas por uma consulta.

O documento ainda comemora a criação de 30 novos leitos hospitalares no SUS em um ano. Trinta. Para uma cidade com quase 1 milhão de habitantes. É como encher um estádio e oferecer mais algumas cadeiras de plástico no fundo da arquibancada, vendendo isso como grande vitória.

Nos CAPS, então, o avanço é nulo. Nenhum leito novo em 2024. O último suspiro de expansão foi no ano anterior, com seis vagas. É o retrato de uma gestão que fala em saúde mental em discursos, mas mantém as portas fechadas para quem realmente precisa.

Enquanto isso, a Santa Casa segue sobrecarregada, o Hospital Regional não dá conta da demanda e o atendimento básico nos postos é um convite à desistência. Não é à toa que muitos preferem arriscar a vida na fila do pronto-socorro a esperar meses por uma consulta de rotina.

A gestão municipal insiste em comparar números, mas ignora a qualidade do serviço prestado. É como dizer que comprou mais remédios, sem admitir que continuam faltando nas prateleiras das farmácias públicas. Para o cidadão comum, os milhões viram fumaça quando o diagnóstico não chega ou a cirurgia é adiada.

O paradoxo é cruel porque nunca se gastou tanto e nunca se atendeu tão mal. Talvez porque investimento sem planejamento seja apenas despejo de dinheiro em um sistema falido, onde o que cresce de verdade são os contratos e não a eficiência.

A cada aniversário da cidade, divulgam-se relatórios com estatísticas brilhantes e recordes de gastos. Mas o campo-grandense já aprendeu que essas publicações servem mais como propaganda do que como reflexo da realidade.

A verdade é que, para a população, não existe investimento recorde. O que existe é recorde de descaso, de demora, de sofrimento e de indignação. O que o poder público chama de progresso, o povo chama de caos.

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