
Toda a diretoria da Santa Casa de Campo Grande precisa deixar o comando do hospital imediatamente. Não há mais condições morais, administrativas ou políticas para que a instituição continue sob influência do mesmo grupo que presidiu anos de crise, salários atrasados, pedidos sucessivos de socorro financeiro e suspeitas de desvios milionários. Trocar apenas a presidência e conservar o restante da estrutura seria zombar da população.
Trata-se de reconhecer que uma direção atingida por suspeitas dessa gravidade perdeu a credibilidade necessária para administrar o maior hospital de Mato Grosso do Sul. A Santa Casa não pode permanecer entregue a pessoas ligadas ao grupo investigado, nem aceitar uma sucessão interna preparada para que tudo continue exatamente como antes.
A saída deve ser coletiva. Presidente, vice, diretores, responsáveis financeiros e integrantes dos núcleos que participavam das decisões precisam ser substituídos por uma administração técnica, independente e sem vínculos com as gestões anteriores. Quem estava no comando tinha o dever de conhecer os contratos, controlar os pagamentos e proteger o patrimônio da instituição. Se não viu o que acontecia, foi incompetente. Se viu e nada fez, precisa explicar por quê.
A Santa Casa recebe cifras vultosas do poder público, mas vive anunciando penúria. Falta dinheiro para salários, medicamentos, fornecedores e manutenção. Faltam condições dignas para pacientes e trabalhadores. O que nunca parece faltar são contratos milionários, empresas favorecidas e intermediários circulando ao redor do caixa. Essa contradição destrói qualquer argumento em defesa da continuidade administrativa.
A roubalheira denunciada não nasceu agora. Gestões anteriores também foram marcadas por crises, suspeitas, descontrole e falta de transparência. Durante anos, a instituição pediu mais recursos sem apresentar uma solução definitiva para o rombo. O dinheiro entrava, a dívida permanecia e o hospital voltava a ameaçar o atendimento. A permanência do mesmo modelo permitiu que a crise deixasse de ser exceção e se transformasse em método.
As investigações apontam pagamentos muito superiores aos serviços efetivamente executados, contratos sem estudos técnicos suficientes e milhões de reais destinados a empresas ligadas a núcleos privados. Também surgiram indícios de saques, transferências suspeitas e movimentações destinadas, segundo a apuração, a dificultar a identificação dos beneficiários finais. Diante disso, deixar antigos dirigentes ou aliados cuidando dos documentos e das contas seria colocar a raposa para vigiar o galinheiro.
A revolta aumenta quando o patrimônio ostentado é comparado à miséria do hospital. Enquanto trabalhadores ficam sem salário e pessoas morrem esperando atendimento, aparecem notícias sobre apartamento comprado com dinheiro vivo, galeria comercial construída em área nobre e carros luxuosos. Ninguém pode exigir silêncio diante de sinais tão escandalosos de enriquecimento cercando uma instituição que vive implorando dinheiro público.
A solução não é escolher um sucessor entre os próprios integrantes da direção. Isso seria uma troca cenográfica, feita para preservar interesses, controlar informações e manter o poder nas mesmas mãos. A Santa Casa precisa de uma administração verdadeiramente independente, acompanhada por auditoria externa, com participação dos entes públicos que financiam o hospital e divulgação integral de contratos, pagamentos, dívidas e patrimônio.
Também não basta retirar a diretoria e permitir que todos saiam tranquilamente pela porta da frente. Cada centavo desviado precisa ser rastreado e devolvido. Bens devem ser bloqueados, contratos suspeitos precisam ser revisados e os responsáveis devem responder nas esferas civil, criminal e administrativa. Dinheiro arrancado de um hospital representa salários, medicamentos, cirurgias, leitos e vidas.
A Santa Casa não precisa de remendo, acomodação política ou acordo de bastidores. Precisa de ruptura. Toda a direção deve sair, o modelo de gestão deve ser substituído e as contas precisam ser abertas à sociedade. Manter qualquer pedaço da velha estrutura será prolongar a doença que destruiu o hospital por dentro. Antes de pedir mais dinheiro ao contribuinte, é preciso expulsar o sistema que permitiu que a miséria dos pacientes financiasse o luxo de quem deveria cuidar deles.