Enterraram a CPI de manhã e foram churrasquear com Adriane à noite

A Câmara Municipal de Campo Grande enterrou a CPI da Saúde durante o dia e, horas depois, parte dos vereadores estava reunida na residência da prefeita Adriane Lopes. A coincidência pode até ser explicada pelos envolvidos, mas para uma população que enfrenta falta de remédios, demora em consultas, escassez de exames e uma saúde em permanente estado de crise, a imagem é devastadora.

A rejeição da CPI ocorreu justamente no momento em que aumentam as denúncias envolvendo a saúde pública municipal. Famílias cobram explicações pela morte de crianças após sucessivas passagens por unidades de saúde. Pacientes reclamam da falta de medicamentos. O Ministério Público investiga problemas relacionados ao abastecimento e aos pagamentos de fornecedores. Ainda assim, a Câmara decidiu não aprofundar as investigações.

O que mais revolta a população não é apenas o arquivamento da CPI. É a mensagem transmitida logo em seguida. Enquanto milhares de campo-grandenses aguardavam uma demonstração de independência e fiscalização, vereadores participaram de uma confraternização com a mesma gestão que deveria ser alvo de apuração rigorosa.

A situação reforça uma percepção cada vez mais presente nas ruas: Adriane Lopes tem a Câmara Municipal do bolso. Além disso, muitos parlamentares parecem mais preocupados em preservar relações políticas do que em cumprir sua principal obrigação constitucional, que é fiscalizar os atos do Poder Executivo.

A saúde de Campo Grande atravessa uma das fases mais delicadas dos últimos anos. Faltam medicamentos, fornecedores reclamam de atrasos nos pagamentos, unidades enfrentam dificuldades operacionais e a população encontra obstáculos diários para acessar serviços básicos. Diante desse cenário, a decisão de sepultar a CPI foi recebida com indignação pela sociedade.

O discurso de independência adotado por alguns vereadores durante as sessões contrasta com a postura observada nos bastidores. Quando surge a oportunidade de investigar, pedir documentos, convocar responsáveis e esclarecer fatos, a firmeza desaparece e a fiscalização perde força.

A população não elege vereadores para participar de acordos políticos ou churrasco na casa da prefeita. Elege para fiscalizar contratos, cobrar resultados, exigir transparência e defender o interesse público. Quando isso não acontece, cresce inevitavelmente a sensação de abandono e descrença.

O episódio também expõe o desgaste da relação entre representantes e representados. Enquanto moradores enfrentam filas, falta de remédios, de profissionais, de estrutura e dificuldades para conseguir atendimento médico, parte da classe política parece viver uma realidade completamente diferente daquela encontrada pela população.

Nenhum vereador é obrigado a romper relações com a prefeita. O problema surge quando a convivência política parece se sobrepor ao dever de fiscalização. A proximidade que deveria servir para cobrar soluções acaba transmitindo a impressão de complacência diante dos problemas que afligem a cidade.

Ao rejeitar a CPI da Saúde e, logo depois, aparecer ao lado da prefeita em um momento de confraternização, parte da Câmara produziu uma imagem difícil de explicar e ainda mais difícil de justificar. Para quem espera respostas sobre a crise na saúde pública, ficou claro que a fiscalização perdeu para o acordo político.

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