
Em Campo Grande, a lógica da gestão pública segue uma matemática peculiar: mesmo com 13 ambulâncias novinhas em folha paradas, a Prefeitura preferiu desembolsar R$ 1,4 milhão com aluguel de veículos de uma empresa de Minas Gerais. E a conta ainda não fechou porque o contrato com a A&G Serviços Médicos Ltda deve chegar a R$ 1,9 milhão até julho de 2025. O curioso? A filial da empresa foi aberta no mesmo dia da assinatura do contrato com a Secretaria Municipal de Saúde.
A tal A&G, do grupo CMD Saúde, parece ter caído nas graças da gestão de Adriane Lopes. A licitação foi homologada em maio do ano passado e, num timing perfeito, o contrato foi assinado em julho, coincidindo com a abertura da filial em solo campo-grandense. Enquanto isso, as ambulâncias novas, compradas com verba federal, amargam o estacionamento do Samu.
Se a Prefeitura queria evitar o desgaste da nova frota, talvez uma garagem refrigerada fosse mais barata. Porque, segundo a própria Sesau, o uso das locadas é para “preservar” os veículos novos, que estariam passando por trâmites burocráticos. Resta saber se o envelhecimento precoce dos automóveis por falta de uso também está nos planos de “preservação”.
Não bastasse o desperdício, a escolha por um contrato milionário com empresa de outro Estado acende o alerta: por que terceirizar o que já se tem em casa, pronto para operar? A resposta, por ora, é um punhado de explicações esfarrapadas em notas oficiais e uma avalanche de suspeitas que começa a incomodar os órgãos de controle.
O Ministério Público Federal e o Estadual já foram provocados por parlamentares, que querem saber por que as ambulâncias novas, entregues em dezembro e abril, ainda não estão rodando. A resposta da Prefeitura? A frota está “em fase final de regularização”. Até lá, o aluguel segue a todo vapor, pelo menos nas planilhas de pagamento.
Tem vereador que também se mexeu e quer explicações formais da prefeitura. Enquanto isso, a população espera, como sempre, entre uma desculpa e outra, para conseguir atendimento de urgência.
O mais irônico é que o contrato acaba em julho, mesma previsão da Sesau para colocar as novas viaturas em funcionamento. Ou seja, o aluguel serviu, aparentemente, para preencher um “vácuo de gestão” criado pela própria Prefeitura. Planejamento? Transparência? Nem sinal.
Em tempos de aperto orçamentário e cobranças por responsabilidade fiscal, gastar quase R$ 2 milhões para não usar aquilo que já está pago e entregue é mais do que incoerente, é um deboche com o contribuinte.
E ainda há quem defenda que a atual gestão “economiza”. Economiza o quê, exatamente? Ambulância nova na garagem não salva vidas. Mas rende manchete. E, pelo visto, muito contrato.