Empresa de dois dias quer mandar no transporte público da cidade

O cenário do transporte coletivo em Campo Grande ultrapassou todos os limites da decência e se transformou em uma afronta direta à inteligência do cidadão. A notícia de que as quatro empresas do Consórcio Guaicurus foram vendidas para uma firma constituída meramente dois dias antes da assinatura do contrato é um escárnio sem precedentes. Não é preciso ser um especialista em direito administrativo ou mercado financeiro para sentir o cheiro forte de mais uma maracutaia armada nos bastidores do poder municipal. É uma vergonha que o destino da mobilidade urbana de milhares de trabalhadores seja tratado com tamanha leviandade e falta de transparência.

A população campo-grandense que diariamente sofre em terminais sucateados e ônibus superlotados agora descobre que a bilionária operação do transporte foi repassada para a MaasAdministração e Participações. Essa Sociedade de Propósito Específico foi registrada na Receita Federal no dia 16/07/2026 e já no dia 18 do mesmo mês assinou a compra das viações. Onde já se viu uma transação dessa magnitude ser entregue nas mãos de uma pessoa jurídica que mal saiu das fraldas e não possui o menor histórico de prestação de serviços na cidade.

O espanto se transforma em revolta generalizada quando se analisa o capital social declarado dessa nova gigante do transporte que é de míseros R$ 10 mil. Como pode uma empresa com o valor equivalente ao preço de uma motocicleta popular assumir o controle de frotas inteiras e contratos públicos que movimentam milhões de reais todos os meses. Essa disparidade financeira é um insulto aos órgãos de fiscalização e deixa claro que estamos diante de uma manobra jurídica que visa blindar os verdadeiros donos do negócio.

A farsa ganha contornos ainda mais graves e novelescos quando se constata a situação do endereço físico fornecido pela compradora na Avenida Afonso Pena. A sala comercial indicada no registro oficial da Receita Federal está completamente vazia e desocupada. Não existe uma única cadeira, um computador ou um funcionário trabalhando em nome dessa holding no local indicado. É inadmissível que a prefeitura aceite dialogar sobre o futuro da mobilidade urbana com uma empresa fantasma que só existe no papel e em salas comerciais desertas.

A complacência da Prefeitura de Campo Grande diante dessa transação relâmpago levanta suspeitas inevitáveis sobre o real papel do poder público nessa história. O município decretou intervenção no sistema de transporte coletivo em junho e logo em seguida surge essa solução mágica costurada em 42 horas. Essa sequência de fatos demonstra uma pressa altamente suspeita em resolver os interesses dos empresários enquanto as reclamações dos usuários sobre atrasos e veículos sucateados continuam sendo ignoradas.

A prefeita Adriane Lopes correu para anunciar a negociação com entusiasmo poucas horas após o recebimento do comunicado oficial do consórcio. Essa postura açodada de comemorar a chegada de um grupo que operará através de uma empresa de R$ 10 mil revela uma gritante falta de zelo com o patrimônio público. A prefeitura deveria ser a primeira a barrar esse tipo de arranjo corporativo duvidoso e exigir garantias financeiras em vez de agir como mera espectadora de um negócio privado que afeta toda a cidade.

A justificativa de que a nova empresa pertence ao tradicional Grupo HP e que isso traria segurança jurídica não passa de uma cortina de fumaça para enganar os desavisados. Se o grupo comprador possui tanta solidez econômica, qual é o motivo oculto para não assinar o contrato diretamente com sua empresa principal de mobilidade urbana. A utilização dessa subsidiária criada às pressas serve unicamente para afastar a responsabilidade civil e financeira da matriz caso o sistema de Campo Grande entre em colapso definitivo nos próximos meses.

A Câmara Municipal e o Ministério Público Estadual têm a obrigação urgente de intervir nessa transação antes que o município assine a anuência da transferência de controle. Os vereadores não podem se calar diante de um contrato de compra e venda assinado por uma empresa que possui apenas dois dias de vida útil. É necessário exigir a abertura imediata de uma auditoria profunda para apurar as condições dessa venda e verificar se houve direcionamento político durante o período de intervenção municipal.

O cidadão que paga uma das tarifas mais caras da região centro-oeste não pode continuar sendo tratado como palhaço nesse balcão de negócios escusos. O transporte público é um serviço essencial e um direito social garantido pela Constituição Federal e não uma mercadoria a ser negociada em esquemas de última hora dentro de gabinetes fechados. A sociedade exige respeito e não aceitará passivamente que a prefeitura valide esse contrato absurdo sem que todas as cartas sejam colocadas na mesa de forma clara.

Aprovar a entrada dessa holding de papel com capital social irrisório será a assinatura da cumplicidade com o sucateamento do transporte público local. Esperamos que as autoridades competentes ajam com o rigor necessário para barrar essa maracutaia e devolver a dignidade aos usuários que dependem do transporte.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br