
O escândalo que envolve a empresa da esposa doCapitão Renan Contar demonstra bem como funciona a engrenagem que move o dinheiro da política em Mato Grosso do Sul. Enquanto a Justiça não consegue sequer localizar a Diniz Ação em Marketing para que ela responda a uma ação por corrupção, o fluxo de dinheiro público segue firme e sem qualquer dificuldade. A empresa que desaparece quando é chamada a prestar contas é a mesma que recebe, com pontualidade, valores elevados do Fundo Partidário, em um cenário que desafia a lógica e afronta o senso mínimo de justiça.
De um lado, a empresa Diniz Ação em Marketing Ltda, registrada em nome de Iara Diniz Contar, esposa do Capitão Contar, segue faturando R$ 150 mil mensais do PL. De outro, a mesma empresa é alvo de uma Ação Civil Pública por suspeitas de corrupção envolvendo contratos firmados durante a gestão do ex-prefeito Paulo César Lima Silveira, o Paulo Tucura, de Ribas do Rio Pardo e, coincidentemente, também do PL. O contraste entre a facilidade para receber recursos e a dificuldade para ser localizada pela Justiça escancara uma engrenagem que, no mínimo, merece explicações urgentes.
O Ministério Público Estadual não economizou palavras ao descrever o comportamento da empresa. Falou em atuação obscura, em desrespeito aos princípios constitucionais e em uma engrenagem que operava como uma caixa preta. Trata-se de uma acusação direta de fraude contra o patrimônio público, com potencial de lesar cofres que já operam sob pressão constante.
Entre 2017 e 2020, contratos administrativos foram inflados por meio de aditivos sucessivos e irregulares. A estratégia, segundo a investigação, era simples e eficiente para quem desejava contornar a lei. A prefeitura contratava serviços complexos e utilizava a agência como intermediária para compras comuns, criando uma espécie de atalho para escapar das exigências legais de licitação.
O mecanismo descrito pelo Ministério Público é típico de esquemas que buscam blindagem técnica para práticas ilegais. Ao terceirizar aquisições banais por meio de uma agência contratada, a administração pública driblava o controle e criava uma zona cinzenta onde a fiscalização praticamente desaparecia. É nesse terreno fértil que a corrupção costuma prosperar.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Mais de R$ 300 mil foram intermediados diretamente pela empresa em operações questionadas. Ao longo dos quatro anos investigados, o montante ultrapassa R$ 1,6 milhão. Dinheiro público que deveria atender ao interesse coletivo, mas que acabou envolvido em suspeitas de desvio e manipulação.
Mesmo diante desse cenário, a Justiça ainda enfrenta dificuldades para dar andamento ao processo. A empresa foi transformada em ré, mas não pode ser citada porque simplesmente não é localizada. Oficiais de Justiça percorrem endereços, retornam com notificações frustradas e assistem ao processo patinar diante de um sumiço que desafia a lógica.
A situação se agrava quando se observa o timing. Foi justamente no período em que firmou contrato com a cúpula nacional do Partido Liberal que a empresa passou a desaparecer dos radares judiciais. Enquanto isso, os pagamentos seguem fluindo com precisão quase automática, sem qualquer entrave operacional.
O mais revoltante é que para cobrar responsabilidades, o Estado encontra obstáculos. Para liberar recursos, tudo funciona com rapidez e regularidade. O mesmo CNPJ que não atende à Justiça recebe transferências mensais que somam centenas de milhares de reais em poucos meses.
O caso da Diniz Ação em Marketing não é apenas sobre uma empresa ou um contrato. É sobre credibilidade, sobre respeito às instituições e sobre o uso do dinheiro público em um país onde a população já convive com inúmeras carências. Não se trata apenas de um processo travado, mas de um modelo que permite que suspeitas graves convivam com a normalidade dos repasses. E enquanto isso não for enfrentado com firmeza, o descrédito só tende a crescer.