
Campo Grande vai ganhar um “Big Brother” do trânsito, com 85 novas câmeras, radares em mais de 350 faixas de rolamento e até radares móveis para fiscalizar cada esquina da cidade. O contrato de R$ 47,9 milhões com a empresa paulista Serget Mobilidade Viária promete transformar a Capital em vitrine de monitoramento de última geração. Mas, antes de comemorar, convém lembrar de um detalhe incômodo: a Prefeitura vinha multando motoristas mesmo sem contrato vigente.
Sim, em setembro do ano passado o contrato com o Consórcio Cidade Morena havia expirado, mas, como em Campo Grande sempre cabe um jeitinho, a operação continuou normalmente. E o resultado foi milhares de multas aplicadas em plena ausência de respaldo legal. Quem pagou a conta? O contribuinte, claro.
A nova licitação chega cercada de pompa tecnológica. Câmeras PTZ com giro de 360 graus, radares inteligentes, central de monitoramento e análise de imagens. Na prática, é a velha indústria da multa repaginada, agora com marketing de alta resolução.
E o blá-blá-blá é sempre o mesmo: segurança no trânsito. Difícil é convencer o motorista que, na cidade dos buracos, das faixas apagadas e da sinalização precária, o maior zelo do poder público é registrar infrações e gerar boletos.
O curioso é que, nos testes dos novos equipamentos, em menos de um minuto já havia flagrantes de infrações. Parece até que o trânsito campo-grandense é um reality show de caos. O problema é que, diferente da TV, aqui não há eliminação, mas só prêmios em forma de multa.
A Prefeitura garante que a Serget venceu com preço abaixo do teto da licitação. Mas, se o histórico se repetir, os aditivos virão com a mesma velocidade dos flashes das câmeras. E o valor final do contrato deve engordar tão rápido quanto a lista de condutores autuados.
Enquanto isso, os buracos continuam abertos, os semáforos vivem em pane e a mobilidade da Capital segue um desastre. Mas o que importa é ter o maior “Big Brother” viário do Centro-Oeste, pronto para vigiar dia e noite a rotina dos motoristas.
A ironia é que o mesmo poder público que se mostra tão ágil para multar, é lento e omisso quando se trata de tapar um buraco ou pintar uma faixa de pedestre. O radar não perdoa, mas a Prefeitura não cumpre nem o básico.
E quando alguém se pergunta por que Campo Grande é campeã de reclamações no trânsito, a resposta está nos números: contratos milionários, fiscalização excessiva e manutenção urbana precária. Uma fórmula perfeita para transformar direção em martírio e multa em receita.
No fim, a chegada da Serget não representa o início de uma nova era, mas a continuidade de uma velha prática, que consiste em cobrar caro do contribuinte para um sistema que, sob o pretexto de salvar vidas, se revela muito mais eficaz
em engordar cofres públicos. Afinal, em Campo Grande, o trânsito é caótico, mas a engrenagem das multas nunca atrasa.