Desvio de finalidade vira política pública em Campo Grande

O deputado estadual Pedrossian Neto não apenas apontou uma irregularidade: ele descreveu um escárnio institucionalizado. Em vídeo divulgado nas redes, o parlamentar desmontou, com ironia e fatos, a narrativa da prefeita Adriane Lopes, que na semana passada jurava estar “rigorosamente em dia” com o consórcio responsável pelo transporte coletivo. A mentira, como disse o deputado, teve perna curta, e tropeçou nos próprios números.

Segundo Pedrossian, a Prefeitura garantiu que não devia um centavo, mas agora marcou coletiva de imprensa para anunciar o pagamento de R$ 9 milhões. Metade disso seria quitada já nesta segunda-feira. A conta não fecha, mas o teatro é o mesmo: nega-se a crise até o último segundo, e quando a farsa cai, disfarça-se de “gestão responsável”.

O parlamentar contou que a reversão só ocorreu após um pedido formal de informações feito pela Assembleia Legislativa. Ou seja, não foi boa vontade, foi constrangimento. A “boa notícia”, ironizou, é que Campo Grande não terá greve — apenas mais um capítulo na novela da incompetência administrativa. “Ufa!”, brincou, como quem sabe que o alívio é passageiro e custeado com o dinheiro público.

Mas o que veio depois beira o surreal. Segundo Pedrossian, a Prefeitura pretende usar recursos do Fundo Municipal de Saúde para pagar o subsídio do transporte coletivo. A justificativa oficial: como pacientes renais, oncológicos e com HIV têm direito à gratuidade no transporte, o gasto pode ser enquadrado como despesa da saúde. “Alô? É do Tribunal de Contas? Pode isso mesmo?”, questionou o deputado, em tom de incredulidade.

A pergunta não é retórica. O que se configura ali é um desvio de finalidade explícito, anunciado em alto e bom som, diante de uma plateia de servidores e jornalistas. E o mais grave: sem que nenhuma das instituições responsáveis pela fiscalização — câmara, tce ou mpe (assim mesmo, em letras minúsculas) — tenha se manifestado até agora.

O mpe ainda pode alegar sobrecarga de trabalho, mas o tce e a câmara viraram cabide de emprego e balcão de negócios espúrios. A denúncia traduz um sentimento generalizado: Campo Grande está entregue a uma engrenagem pública que perdeu a vergonha de ser ineficiente e cúmplice.

Enquanto a Prefeitura faz contorcionismo contábil, o transporte coletivo segue afundando e dependente de subsídios que consomem cada vez mais verba pública. Agora, além de pagar caro pelo serviço, o cidadão descobre que parte do dinheiro da saúde pode estar sendo drenado para salvar o caixa do consórcio.

O episódio expõe o nível de improviso que virou rotina na administração municipal. Quando a mentira cai, inventa-se um truque contábil. Quando o truque falha, busca-se outro fundo. E quando tudo dá errado, convoca-se coletiva de imprensa para vender o desastre como eficiência. Campo Grande virou laboratório de criatividade orçamentária, mas sem transparência, sem técnica e sem pudor.

O silêncio das instituições completa o quadro. Câmara submissa, TCE complacente e Ministério Público exausto formam o tripé perfeito da impunidade administrativa. Todos sabem, ninguém reage. E o contribuinte, que financia o show, assiste de arquibancada.

A fala de Pedrossian Neto não é apenas um alerta. É o diagnóstico de um sistema que se acostumou ao absurdo. Quando a própria gestão admite que vai usar dinheiro da saúde para bancar ônibus, não é só descaso, é a confissão de que o desvio de finalidade virou política pública. E que, em Campo Grande, a imoralidade agora tem rubrica orçamentária.

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