
A paisagem de Campo Grande se transformou em um retrato permanente da negligência administrativa. Fios pendurados, cabos abandonados e postes sobrecarregados se espalham por avenidas movimentadas, bairros residenciais e até regiões centrais, expondo diariamente motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres a riscos graves. O mais revoltante é saber que a cidade já possui uma lei para enfrentar o problema, mas a gestão da prefeita Adriane Lopes simplesmente não regulamentou a norma.
A cobrança feita na Câmara Municipal de Campo Grande só escancarou aquilo que a população sente há anos nas ruas. Não falta legislação. Falta vontade política para tirar a lei do papel e fazer a máquina pública funcionar de verdade. Enquanto isso, o perigo continua pendurado sobre a cabeça da população.
O debate ganhou força após a manifestação do técnico em informática Francisco Vilar Marcondes, presidente do Projeto Rede Limpa, que levou ao plenário imagens e relatos de acidentes envolvendo fios caídos. Sua fala trouxe à tona um problema que deixou de ser apenas visual e passou a representar ameaça à segurança pública.
A lei aprovada ainda em 2019 estabeleceu regras claras para concessionárias de energia, telefonia, internet e TV a cabo. As empresas deveriam retirar fios inutilizados, organizar cabeamentos e realizar manutenção preventiva. No entanto, passados sete anos, a legislação segue paralisada pela falta de regulamentação do Executivo municipal.
Campo Grande vive cercada por discursos de modernização enquanto a população continua desviando de fios caídos nas calçadas e convivendo com postes transformados em emaranhados perigosos.
Nesse contexto, a postura firme do presidente da Câmara, Epaminondas Neto, o Papy, merece destaque. O parlamentar conduziu o debate com seriedade e deu ao tema a importância que ele exige. Ao defender maior fiscalização e cobrar responsabilidade do Executivo, demonstrou compreender que o Legislativo não pode assistir passivamente ao avanço da desordem urbana.
Sua fala sobre a cadeia de terceirizações envolvendo empresas responsáveis pelos postes e instalações expôs um problema estrutural ignorado há anos. Quando ninguém assume responsabilidade, sobra para a população conviver com o abandono. A observação feita por Papy mostra conhecimento técnico e compromisso com soluções práticas.
A Câmara, mais uma vez, assume protagonismo diante da inércia do Executivo. Enquanto a prefeitura deixa uma lei esquecida nas gavetas, vereadores pressionam, debatem e tentam construir mecanismos para proteger a cidade. Esse movimento fortalece o papel fiscalizador do Legislativo e evidencia sua independência.
O mutirão que retirou 15 mil metros de fios irregulares da região central mostrou que o problema pode ser enfrentado quando existe coordenação e prioridade. Mas ações pontuais não resolvem um cenário crônico. Sem fiscalização contínua, punição efetiva e regulamentação da lei, o caos retorna rapidamente.
A nova proposta em tramitação na Câmara surge justamente porque a cidade cansou de esperar. A exigência de identificação obrigatória dos cabos, multas mais severas e responsabilização objetiva das empresas demonstra que o Legislativo tenta preencher um vazio deixado pela falta de ação administrativa.
Campo Grande não pode continuar vivendo sob uma rede de abandono espalhada pelos postes. A regulamentação da lei deixou de ser uma escolha política e passou a ser uma obrigação moral diante dos riscos impostos à população. A cidade precisa de gestão, fiscalização e coragem para enfrentar interesses econômicos que há anos operam sem o devido controle.
Quando a Câmara cobra providências e coloca o tema no centro do debate público, ela cumpre seu dever institucional. Já a prefeita Adriane Lopes precisa decidir se continuará assistindo ao problema crescer ou se finalmente assumirá a responsabilidade de fazer valer uma lei que a própria prefeitura deixou esquecida no fundo da gaveta.