
Campo Grande vive um cenário de revolta generalizada com o aumento do IPTU, enquanto serviços básicos falham e a cidade sofre com buracos, alagamentos e falta de estrutura. Em meio ao tarifaço, cresce uma pergunta incômoda que a prefeita Adriane Lopes ainda não respondeu de forma à população, por que um terreno de aproximadamente mil metros quadrados, onde ela e o marido residem, não aparece em seu nome nem nas declarações oficiais.
Documentos de propriedade apontam que o imóvel localizado no Carandá Bosque III está registrado em nome de Antônio Maria Parron, fiscal aposentado da Prefeitura de Campo Grande. É justamente nesse endereço que a prefeita e o deputado estadual Lídio Lopes mantêm residência, em um dos bairros mais valorizados da Capital.
O contraste chama ainda mais atenção porque o Carandá Bosque III foi uma das regiões beneficiadas com redução significativa do IPTU e da taxa do lixo, em torno de 40%, por decreto da própria prefeita. Enquanto moradores de outros bairros enfrentam aumentos de quase 400%, a área onde a prefeita vive passou a pagar menos.
A ausência desse imóvel nas declarações de bens à Justiça Eleitoral agrava o questionamento. Nem nas prestações de contas apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral pelo deputado em 2022, nem nas da prefeita em 2024, consta o terreno onde o casal reside. O único bem declarado é um terreno de 588 metros quadrados em nome de Lídio Lopes.
A conta não fecha. Ou o casal reside exclusivamente nesse terreno menor, o que não condiz com a realidade observada, ou há outro imóvel utilizado como moradia que simplesmente não foi declarado. Essa omissão levanta dúvidas legítimas sobre transparência e sobre o real patrimônio do casal que comanda o Executivo municipal.
O fato de o terreno estar em nome de um ex-fiscalda prefeitura amplia o desconforto. Antônio Maria Parron já foi citado em investigações relacionadas a esquemas de corrupção que desviou R$ 60 milhões dos cofres públicos no passado, o que torna ainda mais urgente um esclarecimento sobre o vínculo entre as partes e a razão de o imóvel não estar registrado em nome de quem efetivamente o utiliza.
Enquanto isso, a prefeita insiste no discurso de que o aumento do IPTU seria fruto de melhorias na cidade. A narrativa, porém, esbarra na realidade das ruas e na percepção de injustiça fiscal, sobretudo quando surgem indícios de que quem governa paga menos enquanto a população paga mais.
A gestão municipal não pode tratar esse tema como fofoca ou ataque político. Trata-se de documentos públicos, de declarações oficiais e de um dever básico de transparência com o contribuinte que sustenta a máquina pública.
Em um momento de desgaste profundo da administração, o silêncio só aprofunda a crise de confiança. A prefeita deve explicações sobre onde mora, por que o imóvel não aparece em seu nome e por que a região onde vive foi beneficiada enquanto o restante da cidade foi penalizado.
É justo impor um tarifaço ao cidadão comum enquanto a própria prefeita e seu marido não esclarecem a situação do imóvel em que vivem e pagam um dos IPTUs mais baixos da Capital?Transparência não pode ser seletiva, sobretudo quando a conta chega para todos.