Crianças morrem enquanto o poder público respira aliviado

Enquanto crianças morrem à espera de leito em Campo Grande, a prefeita Adriane Lopes (PP) e seus aliadas parecem viver numa realidade paralela, onde o colapso da saúde pública serve apenas de pano de fundo para reajustes salariais próprios. Em 10 dias, pelo menos duas crianças perderam a vida aguardando vaga em UTI, segundo investigação do Ministério Público Estadual. E isso é só o começo do retrato cruel que se desenha diariamente nos corredores de UPAs e CRS da Capital.

A promotora Daniella Costa da Silva, da 32ª Promotoria de Justiça da Saúde Pública, está há quase dois anos tentando diálogo com a gestão municipal — foram sete reuniões e mais de dez ofícios ignorados. Cansada de esperar que alguém se importe, ingressou com uma ação civil pública pedindo, em caráter de urgência, a criação de mais 30 leitos de UTI. Um pedido óbvio diante do cenário dantesco, mas que soa quase como súplica diante da letargia do poder público.

No documento entregue ao juiz Ariovaldo Nantes Corrêa, a promotora é direta: crianças estão sendo mantidas por dias em condições improvisadas, com suporte ventilatório precário, lutando para respirar, literalmente. O problema não é novo, mas a omissão continua sendo tratada como política de governo.

Durante vistoria feita pelo MPE nas centrais de regulação, foram encontradas 136 crianças esperando por leito há mais de 24 horas — e 80 delas há mais de 48 horas. Muitas estavam jogadas em leitos improvisados, com falta de insumos básicos, antibióticos em falta, e pais tendo que pagar fisioterapeutas particulares para garantir algum tipo de cuidado.

E não adianta alegar emergência: nos últimos três anos, a saúde da Capital já foi declarada em estado crítico mais de uma vez, por conta das síndromes respiratórias agudas (SRAG). Nada mudou. Nada melhorou. Só o número de vítimas aumentou.

Segundo o relatório do MPE, faltam desde cateter nasal até amoxicilina com clavulanato, o que obriga profissionais da saúde a recorrerem a medidas improvisadas, enquanto mães se desesperam e crianças agonizam. Tudo isso em pleno século XXI, na Capital de um estado com arrecadação bilionária.

E o que faz a prefeita Adriane Lopes em meio ao caos? Comemora tapa-buraco com bica corrida, assina contratos milionários para câmeras de multa e garante, claro, o reajuste do próprio salário e de seus secretários. O colapso da saúde não rende curtidas nem votos. Melhor fingir que não existe.

A omissão da gestão municipal diante das mortes infantis não é apenas um fracasso administrativo, é um retrato cruel de prioridades invertidas. A fila por leitos é longa, mas a fila por vergonha parece ainda maior.

Se o Judiciário não agir com a urgência que a situação exige, a próxima vítima da fila da UTI já está a caminho. Porque em Campo Grande, sob a batuta da prefeita Adriane, a política pública virou isso: uma fila. De ofícios ignorados, de crianças sem atendimento e de vidas que se esvaem, uma a uma, diante do cinismo institucionalizado.

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