CPI pode ser um passo firme contra o desmonte da saúde pública

A assinatura do requerimento da CPI da Saúde pela vereadora Luiza Ribeiro abre uma fresta de luz no cenário sombrio construído pela gestão Adriane Lopes. Em meio ao caos instalado nas unidades, à falta de médicos, insumos e medicamentos, e ao colapso financeiro do Fundo Municipal de Saúde, finalmente surge um movimento institucional disposto a enfrentar a realidade que a Prefeitura tenta maquiar desde o primeiro escândalo. A cidade, há muito tempo à deriva, parece encontrar no Legislativo um momento de coragem.

A iniciativa de Luiza expõe o tamanho da crise e também a insistência da administração em empurrar problemas para debaixo do tapete. O requerimento não se limita a repetir velhas denúncias, tampouco se apoia apenas no noticiário. Ele reúne novos fatos determinados, todos devidamente estruturados, que descrevem com clareza o descontrole da saúde pública, hoje comandada por um Comitê Gestor cuja eficiência só existe no discurso.

Entre os pontos mais graves, está a suplementação orçamentária de mais de R$ 158 milhões, editada na surdina, sem transparência e sem qualquer esforço de comunicação à população que depende do SUS para viver. Some-se a isso a transferência ilegal de recursos do Fundo Municipal de Saúde para subsidiar o Consórcio Guaicurus, um verdadeiro contorcionismo jurídico que transformou verba da saúde em bilhete de transporte coletivo.

A CPI também pretende mergulhar na negligência crônica da assistência farmacêutica, área que a gestão de Adriane parece ter esquecido no fundo de uma gaveta. Falta de medicamentos básicos, fornecedores desmotivados pelos atrasos e um orçamento que definha ano após ano configuram um cenário que beira o abandono. Para completar, crianças e pessoas com deficiência seguem sem fraldas, sem sondas, sem suplementos e sem qualquer sinal de prioridade, numa afronta direta à Constituição e à Lei Brasileira de Inclusão.

A vereadora Luiza Ribeiro foi firme ao afirmar que a CPI é um passo indispensável. Em sua avaliação, a cidade vive um estado de calamidade que exige rigor, transparência e coragem política. Não é exagero. Quando o próprio Executivo jura investir mais de 30% dos recursos próprios na saúde, mas nas unidades o que chega é fila, improviso e desespero, há algo profundamente errado no percurso entre o orçamento e o cidadão.

O pedido da CPI evidencia que não se trata apenas de incompetência administrativa, mas de decisões equivocadas que afetam diretamente o direito básico à vida. Esse processo, se instalado, oferece a chance de responder perguntas que a Prefeitura há meses tenta evitar, como o destino real das verbas, a persistência das falhas estruturais e o motivo pelo qual nada parece melhorar apesar do volume de recursos anunciado pela prefeita.

Ao mesmo tempo, a movimentação da Câmara revela que a sociedade civil não está mais disposta a assistir calada ao enredo de desorganização que se repete em cada bairro. A saúde pública de Campo Grande virou um espelho partido,

mostrando ao mesmo tempo o sofrimento dos pacientes e a incapacidade da gestão em lidar com problemas simples, quanto mais complexos.

Depois de protocolado o requerimento, caberá ao Presidente da Câmara decidir pela criação oficial da CPI. Espera-se que o ato seja mais célere do que as respostas que a população vem aguardando há meses. A cidade não suporta mais adiamentos, justificativas ou discursos prontos. O caos não dá trégua e os pacientes não têm tempo a perder.

A possível CPI representa não apenas um instrumento de investigação, mas um símbolo de esperança para quem já não acredita em promessas. Com poderes equivalentes aos de autoridades judiciais, a comissão poderá requisitar documentos, convocar gestores, solicitar perícias e levar ao Ministério Público tudo aquilo que a gestão insiste em esconder. Num cenário de tanto descaso, a transparência deixa de ser escolha e passa a ser obrigação.

Se a Câmara cumprir seu papel, Campo Grande pode, enfim, começar a virar a página. Não será fácil, e ninguém espera milagres. Mas a simples possibilidade de uma investigação séria já devolve à população um sentimento que a gestão Adriane Lopes tentou enterrar: a confiança de que a verdade, cedo ou tarde, encontra seu caminho.

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