
A secretária de Finanças de Campo Grande debocha da cara do povo ao transformar um atestado médico em medalha de participação. Oficialmente afastada por “questões de saúde” desde 25 de novembro, Márcia Helena Hokama desfilou vitalidade em Bonito, completando 10 km em 1h11min, sorriso no rosto, fôlego de adolescente e nenhuma aparência de quem estaria incapacitada para trabalhar. Em plena crise fiscal, com a prefeitura mancando nas contas, a gestora da Sefin aparece esbanjando saúde como se a população fosse um detalhe irrelevante na equação pública.
O episódio seria apenas uma anedota se não ocorresse justamente no momento em que Campo Grande ultrapassou o limite legal de gastos com pessoal, mergulhando a administração em um aperto histórico. Enquanto professores têm salários cortados, profissionais da saúde veem plantões reduzidos e trabalhadores são empurrados para jornadas de seis horas como se isso resolvesse o caos, a titular da Sefin reforma seu condicionamento físico imprimindo ritmo de atleta amadora.
O contraste é tão grotesco que dispensa esforço analítico. De um lado, a prefeitura suspende contratações, gratificações e diárias, impõe cortes mínimos de 25% em gastos operacionais e repete o mantra da austeridade. Do outro, uma secretária licenciada e muitíssimo bem remunerada demonstra desempenho digno de prova esportiva, como se sua “incapacidade laborativa” fosse seletiva e aparecesse apenas quando o assunto é enfrentar a realidade fiscal que ela mesma ajudou a construir.
E não para por aí. A cereja do bolo é o cenário político que se desenha. Fontes apontam que Márcia já não volta mais ao cargo, que Isaac José de Araújo segura a pasta interinamente e que o próximo titular deve ser o pastor Paulo da Silva, atual comandante da Agetran. Uma substituição silenciosa, quase discreta, como se a população fosse incapaz de perceber que o governo tenta trocar o pneu furado sem admitir o estrago.
Mas o problema ultrapassa a esfera política e entra no terreno jurídico, onde as consequências são bem menos esportivas. A apresentação de atestado médico falso, quando comprovada, costuma render sindicância, PAD, suspensão, demissão e outras delícias previstas no Estatuto municipal. Em alguns casos, vira improbidade administrativa, com direito a perda de direitos políticos e ressarcimento de danos. Em outros, vira processo criminal por falsidade ideológica ou uso de documento falso, crimes que não costumam ser resolvidos com medalha, isotônico e foto para o Instagram.
Há precedentes em Campo Grande e em todo o país que mostram exatamente isso: servidores demitidos, condenados, punidos exemplarmente por muito menos. E aqui entra o ponto mais incômodo. Quem terá coragem de cobrar explicações da secretária? Quem vai instaurar investigação? Quem vai exigir a verdade? Porque Márcia Hokama não é apenas uma atleta de fim de semana. É uma autoridade que conhece profundamente as entranhas do município, suas contas, seus erros e, principalmente, seus segredos. E, como já disseram nos bastidores, poucos têm coragem de enfrentá-la. Medo é uma palavra muito citada.
O caso expõe uma assimetria cruel. Servidores comuns vivem sob a lupa, temendo penalidades severas por um deslize burocrático, enquanto figuras do alto escalão transitam com desenvoltura entre licenças milagrosas e corridas de rua. A ética, quando muito, vira acessório opcional. E o respeito ao contribuinte, um item invisível.
A verdade desconfortável é que a secretária, ao aparecer correndo como se nada estivesse acontecendo, mandou um recado claro para toda a administração. Não apenas tocou fogo em qualquer aparência de coerência, mas dançou em volta da fogueira. É como se dissesse a todos que o problema não é falta de saúde, é falta de vergonha coletiva.
O flagrante não é sobre esporte. É sobre a mensagem: enquanto a cidade sofre cortes, restrições e caos administrativo, a titular da Sefin corre leve, solta e pleníssima. A pergunta que fica é simples e devastadora: a licença é médica ou é política?
No fim das contas, sobramos nós. O povo que trabalha, paga impostos, sacrifica serviços e assiste à elite administrativa transformar a cara de pau em modalidade olímpica. Porque, em Campo Grande, até a crise tem quem dispute pódio.