Conselho Tutelar, onde o salário é garantido mas a proteção é esquecida

Em Campo Grande, toda eleição para Conselho Tutelar mais parece guerra de trincheiras do que escolha democrática. Não é novidade que políticos no poder municipal fazem de tudo para emplacar seus aliados, transformando o que deveria ser um espaço de proteção de crianças em mais um braço de influência eleitoral.

Na última disputa, o Jornal O Consumidor News denunciou até pedido explícito de votos em meio a um culto religioso, prova de que a fé vira palanque quando o objetivo é garantir cadeira, salário e prestígio. A bandeira da infância e da juventude é hasteada apenas na hora de pedir voto, mas, quando é para proteger de fato os pequenos, o silêncio e a omissão viram regra.

A morte brutal da menina Emanuelly Victória, de apenas seis anos, escancarou essa contradição. A família era acompanhada pelo Conselho Tutelar desde 2020, e nada impediu que a tragédia acontecesse. Os mesmos que brigam com unhas e dentes por cargos são os que se mostram incapazes de escutar, agir e intervir em tempo para salvar uma criança.

Não é a primeira vez que o órgão se vê no centro de questionamentos. Casos como o de Sophia Ocampo e de Isadora Martins já haviam levantado suspeitas sobre a eficiência dos conselheiros. No entanto, o ciclo continua. Vem eleição, vem promessa, vem discurso inflamado, mas, na prática, o que permanece é a desproteção de quem mais precisa.

O vereador Landmark Rios disse que houve omissão de escuta. O detalhe é que essa omissão não é novidade. Ela é a marca registrada de um Conselho que se mostra mais atento à movimentação de partidos do que ao choro de uma criança. A pergunta que fica é simples: quem escuta os inocentes?

Enquanto isso, políticos enchem a agenda de audiências públicas e discursos emocionados sobre proteção da infância. Nada contra os eventos, mas o povo já percebeu que servem mais para foto em rede social do que para garantir vagas em creches ou acompanhamento eficiente às famílias em vulnerabilidade.

A cada tragédia, surge uma nova proposta de endurecer leis, como se a solução para a violência contra crianças estivesse apenas no Código Penal. A lógica é fácil e conveniente. Enquanto se fala em aumentar penas, ninguém precisa explicar por que os conselhos não funcionam como deveriam.

A hipocrisia fica ainda mais evidente quando o próprio Conselho Tutelar divulga notas de pesar e repúdio. Palavras bonitas para encobrir o fato de que a menina morreu mesmo com visitas, relatórios e acompanhamentos burocráticos que não impediram a violência. A função de proteger virou um papel timbrado.

É vergonhoso assistir a um órgão que deveria ser pilar da defesa infantil ser reduzido a moeda política. O salário parece mais atrativo do que a missão, e a negligência se repete como uma tragédia anunciada. Emanuelly não é a primeira vítima e, se nada mudar, não será a última.

O que sobra é uma dura constatação. O Conselho Tutelar em Campo Grande virou peça de jogo eleitoral, usado por políticos como vitrine de poder, mas incapaz de cumprir o que está na lei. Enquanto isso, crianças continuam a morrer em silêncio, vítimas não só de criminosos, mas também da omissão de quem deveria protegê-las.

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