Carne sem nota e poder sem freio na engrenagem blindada da Fiems

Os caminhões da Boibras seguem firmes pelas estradas de Mato Grosso do Sul. Carregam carne, mas também o odor inconfundível de um esquema que nunca saiu de cena: a meia nota. Nada mudou, só os personagens que ocupam o papel de laranja da vez. Se antes era a mãe, depois o filho do dono do Big Beef, agora o posto é do gerente Ailton. A engrenagem continua girando, intacta, porque quem deveria pará-la prefere fingir que não vê.

E quem garante a blindagem? O nome é conhecido: Régis Comarella, hoje diretor de carnes da Fiems e presidente do Sicadems. Na teoria, um guardião da lisura do setor. Na prática, o homem que tem as costas largas graças à proteção do presidente da Federação das Indústrias, Sérgio Longen. Enquanto estiver debaixo desse guarda-chuva, Comarella usa e abusa, sem temer sol, chuva ou fiscalização.

A conivência é tamanha que até a Sefaz parece se contentar em desempenhar o papel de espectadora. A plateia finge aplaudir enquanto os cofres públicos sangram. Fala-se até em “GPS interno”, guiando caminhões e rotas. Não há novela mais repetida no Estado que a da carne que viaja com nota fria e destino escuro.

A Fiems, nesse enredo, é mais um condomínio de blindagem do que uma federação industrial. A função é simples e consiste em proteger os amigos, empurrar para o freezer da impunidade qualquer suspeita e manter o churrasco reservado aos mesmos convivas de sempre.

O esquema é tão escancarado que já virou folclore no setor. Tratam-se de notas fiscais pela metade, contratos de fachada e destinatários fantasmas. No papel, prejuízo. No bolso, lucro gordo. O cardápio inclui todos os cortes, em especial, fraude bem passada, desvio ao ponto e conivência ao ponto mais.

E se alguém ainda tem dúvida sobre a extensão da podridão, basta olhar para o histórico do Frigorífico Amambai. Sob comando de Jair Lima, aplicou um golpe milionário no Estado. Hoje, o mesmo personagem reaparece silenciosamente nos bastidores do Big Beef, provando que a “picanha” da sonegação tem sempre os mesmos temperos e cozinheiros.

A relação entre Boibras, Big Beef, Amambai e Fiems é tão próxima que já se confunde. Um esquema que não para porque nunca encontrou oposição. Quando a engrenagem emperra, basta trocar o laranja, ajeitar o contrato e seguir viagem. O roteiro é automático.

Mas até quando? Até quando a carne cruzará fronteiras com papéis fictícios e cargas duvidosas? Até quando a Fiems vai fingir que representa a indústria, quando na prática serve de escudo para quem depena o erário?

O Ministério Público segue quieto, como se fosse vegetariano de conveniência. Deputados estaduais, por sua vez, parecem mais interessados no churrasco do fim de semana do que em questionar de onde vem a carne que chega às suas mesas.

Enquanto isso, o contribuinte paga a conta. O Estado perde arrecadação, a concorrência honesta perde espaço e o crime ganha musculatura. É um rodízio de irregularidades, servido sem limite.

O esquema da meia nota sobrevive porque tem donos poderosos e protetores estratégicos. Régis Comarella é apenas a face mais visível de uma engrenagem que continua firme, lubrificada pelo silêncio institucional.

Campo Grande e todo Mato Grosso do Sul já aprenderam que quando o cheiro da carne se mistura ao da corrupção, é porque o churrasco não é para todos. É reservado àqueles que mandam e desmandam, e que seguem, impunes, transformando a fraude em tradição industrial.

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