
A Câmara de Campo Grande resolveu discutir nesta sexta-feira o que a população já sente na pele há muito tempo. Por iniciativa do vereador Landmark Rios e da deputada Gleice Jane, será realizada uma audiência pública para tratar da explosão de favelas que tomou conta da cidade. O debate, batizado de “Regularização de Favelas”, tenta entender o que todo campo-grandense já entendeu sem precisar de audiência: o caos urbano tem nome e sobrenome, e se chama gestão Adriane Lopes.
Enquanto o poder público promove encontros e discursos, a capital volta a viver um cenário que parecia superado há mais de uma década. Segundo o próprio vereador, há hoje 62 comunidades irregulares espalhadas por Campo Grande, a maioria resultado de ocupações em áreas públicas. O número, por si só, escancara o desmonte das políticas de habitação e o abandono completo da periferia, onde a promessa de dignidade virou lama.
Durante os governos passados, Campo Grande chegou a comemorar o fim das favelas, com programas de regularização e reassentamento. Hoje, sob a caneta de Adriane Lopes, a cidade regrediu ao ponto de ver crescer, a cada esquina, uma nova moradia improvisada. É o retrato da gestão que prefere tapar buracos no asfalto a encarar o abismo social que se abre na porta das casas de lona e madeira.
A proliferação das favelas não é o único sintoma do colapso. A população em situação de rua aumentou visivelmente e se espalhou por praças, marquises e avenidas centrais. A capital, que já teve o centro como cartão-postal de comércio e convivência, agora assiste à ocupação desordenada por famílias inteiras que perderam o teto e a esperança.
Nas ruas, o drama social se mistura com o medo. A presença cada vez maior de usuários de drogas no centro escancara a falta de políticas públicas sérias de acolhimento e reabilitação. O que antes era exceção virou rotina. Os bancos das praças e as calçadas transformaram-se em dormitórios improvisados, sob o olhar indiferente da gestão que insiste em pintar meio-fio como se isso limpasse a paisagem da miséria.
Enquanto Landmark e Gleice tentam chamar atenção para o problema, a Prefeitura se limita a discursos genéricos sobre “inclusão social” e “programas habitacionais”. Na prática, o que se vê é uma cidade que retrocede, que troca planos de habitação por ações paliativas e que deixa a desigualdade se espalhar como mato em terreno abandonado.
O cenário é tão evidente que até os números oficiais perderam o pudor. Sessenta e duas comunidades irregulares não surgem da noite para o dia. São resultado de anos de descaso, de um governo municipal que prefere olhar para os outdoors com a própria imagem enquanto a realidade se amontoa em barracos de lona e pedaços de madeira.
Os representantes da Amhasf, da Agehab e do Ministério do Desenvolvimento Regional devem comparecer à audiência. Mas, convenhamos, o problema não está na falta de reunião, e sim na falta de gestão. De que adianta discutir regularização se a própria prefeitura não consegue impedir que novas ocupações surjam todas as semanas?
Campo Grande, que já foi exemplo nacional em habitação popular, agora coleciona favelas e improvisos. A capital que se orgulhava de ser “morada do sol” hoje abriga famílias sem teto, sem luz e sem perspectiva. A população em situação de rua dobra, o centro se deteriora e os governantes seguem distribuindo sorrisos e decretos como se tudo estivesse em ordem.
A audiência pública desta sexta pode até render boas fotos e discursos inflamados, mas dificilmente mudará o quadro. Porque o problema das favelas, da pobreza e da rua é o mesmo que alimenta o esgoto político da cidade: a ausência de gestão, de prioridade e de vergonha.