
Campo Grande assiste há anos suas ruas afundarem junto com a credibilidade do poder público, mas as revelações da Operação Buraco sem Fim conseguem ser ainda mais repugnantes do que os próprios buracos espalhados pela cidade. O que veio à tona não foi apenas um esquema de corrupção. Foi a institucionalização da fraude dentro da máquina pública, onde milhões escorriam pelo asfalto podre enquanto a população destruía carros, colocava vidas em risco e pagava a conta da corrupção.
O caso envolvendo o ex-chefe do tapa buraco da prefeitura, Edivaldo Aquino Pereira, simboliza o nível de degradação moral revelado pela investigação do Gecoc. Segundo os investigadores, o servidor chegou a classificar o serviço executado pela Construtora Rial LTDA como “serviço de porco”. A frase, por si só, já seria escandalosa. Mas o detalhe revoltante é que o próprio Edivaldo continuava assinando medições, validando pagamentos e atestando a execução dos serviços que ele mesmo considerava precários.
A sensação que fica para a população é devastadora. Enquanto moradores desviavam de crateras e enfrentavam ruas abandonadas, pessoas responsáveis justamente pela fiscalização da qualidade das obras permitiam que serviços mal executados fossem pagos com dinheiro público como se fossem exemplos de excelência. E pior. Segundo o Gecoc, serviços sequer realizados teriam sido atestados como concluídos.
As investigações apontam que Edivaldo Aquino Pereira teria validado medições de serviços das empresas AL dos Santos, Engenex e Construtora Rial LTDA mesmo diante de irregularidades graves e da precariedade das obras. O relatório ainda indica que o ex-servidor teria usado o próprio filho para recebimento de propinas, num cenário que transforma a indignação popular em absoluto sentimento de nojo diante da promiscuidade entre agentes públicos e empreiteiras.
O esquema, segundo as investigações, envolvia uma verdadeira engrenagem de favorecimento interno. Entre os presos na Operação Buraco sem Fim estão o engenheiro e sócio da Rial, AntonioBittencourt Jacques Pedrosa, o pai dele AntonioRoberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como Peteca, o ex-secretário de Obras RudiFiorese, o ex-chefe do tapa-buraco Edivaldo Aquino Pereira, o engenheiro da Sisep Mehdi Talayeh, Fernando de Souza Oliveira e o auxiliar de fiscalização Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula.
As mensagens interceptadas pelo Gecoc escancaram uma rotina administrativa assustadora. Mehdi Talayeh cobrava pressa para fechar medições e liberar notas fiscais enquanto a fiscalização das ruas acontecia sem o chamado apontador, servidor responsável por registrar informações fundamentais da obra. Sem esse controle técnico, o ambiente ficava completamente vulnerável à manipulação de dados e à fabricação de medições favoráveis às empreiteiras.
Em uma das conversas reveladas pela investigação, Mehdi determina agilidade para fechar as medições da Rial. Em outra, Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula admite que precisou medir ruas sem apontador porque os registros simplesmente não existiam. A gravidade disso é absurda. O apontador existe justamente para garantir que a obra pública seja fiscalizada com transparência e baseada na realidade do canteiro. Sem ele, abre-se espaço para maquiagem de números, pagamentos indevidos e fraudes milionárias.
Enquanto isso, a Construtora Rial acumulava cifras impressionantes em contratos públicos. Segundo dados do Portal da Transparência, a empreiteira temmais de R$ 147 milhões em contratos ativos em Campo Grande. São contratos de tapa buraco, manutenção de vias de terra, lombadas e grandes obras de recapeamento espalhadas por regiões como Anhanduizinho, Imbirussu e Segredo. Dinheiro suficiente para transformar completamente a infraestrutura urbana da cidade. Mas o que a população vê nas ruas é exatamente o contrário.
O mais revoltante é perceber que esse modelo parece se repetir continuamente em Mato Grosso do Sul. A própria investigação aponta semelhanças entre o esquema apurado na Operação Buraco sem Fim e aquilo que já havia sido denunciado anteriormente na Operação Cascalhos de Areia. Os nomes mudam pouco, os métodos parecem os mesmos e o prejuízo para a população continua gigantesco.
O fato é sempre sobra para o cidadão o retrato mais cruel dessa engrenagem. Ruas destruídas, carros danificados, acidentes, mortes, desperdício de dinheiro público e uma sucessão de escândalos envolvendo empresários, fiscais, engenheiros e gestores que deveriam proteger justamente o interesse coletivo. Campo Grande não afundou apenas em buracos. Afundou em um esquema que, segundo as investigações, transformou o sofrimento da população em combustível para contratos milionários e vantagens ilícitas custeadas pelo bolso do contribuinte.