
Campo Grande quase ganhou o feriadão mais longo da história municipal, mas a pressão e o constrangimento público fizeram a prefeita Adriane Lopes (PP) recuar. Depois da repercussão negativa da primeira publicação no Diário Oficial, que garantia 16 dias consecutivos de folga para os servidores públicos, a prefeitura voltou atrás e republicou a resolução, reduzindo o descanso natalino para “apenas” nove dias.
O episódio seria cômico se não fosse trágico. A capital que enfrenta buracos, falta de remédios e um funcionalismo desmotivado viu a prefeita decretar, num primeiro momento, uma espécie de férias coletivas de luxo. O argumento era a “economia de água e luz”, como se apagar o interruptor fosse solução mágica para os problemas de gestão. A ideia, porém, durou menos de 24 horas, tempo suficiente para que a “crise” agradecesse a generosidade administrativa.
A republicação veio às pressas, numa edição extra do Diário Oficial divulgada ainda pela manhã, contrariando até o hábito da própria prefeitura, que costuma fazer essas publicações no fim do dia. A justificativa foi “erro no texto anterior”, mas o que ficou evidente foi o medo do desgaste político. Afinal, seria difícil convencer o contribuinte de que o recesso de duas semanas era uma medida de austeridade.
A nova versão reduz o feriadão e tenta dar um ar de seriedade à bagunça. Os servidores agora devem se revezar em escalas, preservando os serviços “essenciais”. O problema é que ninguém sabe exatamente o que a prefeitura considera essencial, e o decreto não traz qualquer definição clara. Nem mesmo há menção sobre compensação de horas antes ou depois do recesso, o que transforma o discurso de economia em mais uma promessa vaga.
A prefeitura chegou a emitir nota à imprensa afirmando que nunca houve intenção de parar por 16 dias seguidos. Mas a primeira publicação dizia o contrário, de forma cristalina. Fica a dúvida sobre o que mudou de um dia para o outro — o texto, a consciência ou o medo da opinião pública.
Enquanto tenta remendar o decreto, Adriane repete o argumento de sempre: conter gastos. O problema é que, no topo da pirâmide, as despesas continuam gordas. Secretários com supersalários, contratos milionários e verbas indenizatórias seguem intocados, enquanto o discurso da economia serve apenas para cortar do lado mais fraco.
A confusão se soma à sequência de medidas improvisadas que a prefeita vem empilhando desde o início do ano sob o rótulo de “reforma administrativa”. Na prática, cada decreto parece mais uma tentativa de apagar incêndios com gasolina. O resultado é uma gestão que tropeça nas próprias contradições e coleciona recuos.
Com o recuo do feriadão, a prefeitura tenta vender a imagem de uma administração que “ouve a população”. Mas, na verdade, o episódio mostra o
oposto: uma gestão que publica, despublica e republica ao sabor das críticas, sem planejamento e sem coerência.
O que era para ser uma simples resolução de fim de ano acabou se transformando em mais um capítulo do improviso institucional que domina Campo Grande. A capital segue entre buracos, decretos confusos e uma prefeitura que parece ter como meta descansar antes mesmo de trabalhar.
No fim das contas, o feriadão de Adriane pode ter encolhido no papel, mas o desgaste político continua do tamanho original. Porque, quando o assunto é trapalhada administrativa, a prefeitura nunca economiza.