
A prefeita Adriane Lopes agora governa de costas para quem cumpre o dever. Com o novo decreto do IPTU 2026, publicado no Diário Oficial, o desconto para pagamento à vista foi cortado pela metade. De 20% caiu para 10%. O que antes era um incentivo à pontualidade virou mais um teste de paciência para o contribuinte que paga em dia, enquanto os inadimplentes seguem recebendo tapete vermelho e descontos generosos de até 80% em juros e multas.
A decisão, travestida de ajuste fiscal, reforça a velha cultura da premiação da inadimplência. Em Campo Grande, quem se esforça para quitar o imposto à vista ganha migalhas; quem deve, por outro lado, é tratado como parceiro da gestão. As campanhas de anistia, travestidas de “refis”, são o paraíso dos devedores reincidentes, que esperam a próxima rodada de perdão fiscal com a mesma tranquilidade de quem aguarda o décimo terceiro.
A justificativa é a variação da inflação medida pelo IPCA-E, que reajustou o imposto em 5,32%. Mas a matemática do decreto revela outra lógica. A Prefeitura mantém o reajuste cheio e ainda reduz o incentivo a quem paga adiantado. É o tipo de gestão que cobra mais, entrega menos e ainda chama isso de responsabilidade fiscal.
O famoso “IPTU Azul”, antes símbolo do bom pagador, agora se resume a um bônus burocrático de 10%, o mesmo percentual concedido no pagamento à vista. No papel, parece justo. Na prática, é apenas uma forma de dizer que ser adimplente perdeu o sentido. Afinal, o desconto é o mesmo para todos, e a cor azul, que antes distinguia quem mantinha a cidade em pé, agora é apenas tinta desbotada na planilha da Fazenda.
Enquanto isso, os inadimplentes continuam sendo tratados com afeto institucional e generosas rodadas de renegociação de débitos, com descontos de até 80% em juros e multas. A mensagem é clara: o melhor investimento em Campo Grande é dever à Prefeitura.
O contribuinte que honra seus compromissos não precisa de medalha, mas também não merece ser punido. O problema é que, na lógica de Adriane, o bom pagador virou patrocinador oficial da inadimplência. Paga mais para que os devedores paguem menos, e ainda tem que ouvir que a medida é “para manter o equilíbrio fiscal”.
Curiosamente, a Prefeitura não apresentou até agora o cálculo de impacto da medida sobre a arrecadação nem explicou a estratégia por trás da redução do desconto. Consultada, não respondeu. Talvez porque não haja explicação razoável para um decreto que desestimula a pontualidade e incentiva a cultura do atraso.
Os carnês do IPTU 2026 chegarão aos contribuintes com o reajuste de 5,32%, válido até 12 de janeiro, prazo também para a primeira parcela. A data é simbólica: enquanto o cidadão corre para pagar o boleto cheio, a gestão prepara mais um programa de perdão fiscal para os que ignoraram os boletos anteriores.
Em vez de premiar o compromisso, Adriane premia o descuido. Em vez de incentivar o pagamento, incentiva o atraso. E no fim, o recado é o mesmo de sempre, ou seja, em Campo Grande, a honestidade fiscal virou piada, e o contribuinte pontual é o bobo da corte tributária.
Porque, no reino da prefeita, quem paga em dia não tem desconto, tem desprezo.