
A prefeita Adriane Lopes decidiu que, se não consegue erguer obras, ao menos pode aumentar o preço das que ainda restam. Revogou uma lei sancionada por André Puccinelli há 23 anos e abriu caminho para elevar em 27% o Imposto Sobre Serviços (ISS) da construção civil em Campo Grande. O que era estável há mais de duas décadas virou mais uma dor de cabeça para empresários, consumidores e para a própria imagem da administração municipal.
A mudança aprovada na Lei Complementar 545 é o tipo de retrocesso que chega disfarçado de atualização tributária. Com a nova regra, o imposto passa a incidir não apenas sobre o serviço, mas também sobre o material de construção. Resultado prático e inevitável: tudo ficará mais caro, das obras públicas às casas populares.
Enquanto o País tenta desonerar setores produtivos e aliviar o bolso do contribuinte, Campo Grande segue na contramão. A prefeita ignora o exemplo de Brasília, onde o Congresso aprovou isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e redução para rendas de até R$ 7 mil. Adriane, em vez disso, mira o canteiro de obras e aperta o cerco sobre quem ainda tenta produzir.
A reação do setor foi imediata. A ASMEOP, que representa os empresários de obras públicas, já recorreu à Justiça pedindo a suspensão do aumento. O mandado de segurança tramita na 2ª Vara de Direitos Difusos e escancara a insatisfação do setor produtivo com uma prefeita que, em plena crise, resolve testar a paciência de quem ainda acredita na cidade.
Um empresário do ramo, que mantém contratos com o próprio município, foi direto ao ponto. Segundo ele, Adriane pretende subir a alíquota de 3% para 5%, o que equivale a um aumento de 66%. É uma pancada que vai bater direto no bolso do consumidor, já que o custo inevitavelmente será repassado. Nem o sonho da casa própria escapará do zelo fiscal da prefeita.
O curioso é que a prefeitura tenta vender a medida como algo distante, já que o aumento só valerá a partir de junho de 2026. Mas a data não é aleatória. Coincide com o início da campanha eleitoral do governador Eduardo Riedel, aliado de Adriane, que herdará a conta política da insensatez tributária.
O discurso de contenção de gastos e apoio à iniciativa privada cai por terra. Adriane faz o oposto da madrinha política, a senadora Tereza Cristina, que vive repetindo que não há espaço para aumento de impostos. A diferença é que a senadora critica o governo Lula, mas silencia diante da prefeita que ajudou a eleger e que agora se consagra como campeã da incoerência fiscal.
Os bolsonaristas locais seguem o mesmo roteiro. São ferozes contra Brasília, mas complacentes com a gestão de Campo Grande. Fingem não ver a cidade atolada em buracos, sem remédios, sem médicos e sem direção na saúde municipal. Enquanto isso, Adriane, missionária da Assembleia de Deus Missões, mantém a pasta mais importante entregue a um comitê que decide sem comando.
A promessa de construir um hospital municipal, feita há dois anos, segue perdida no mesmo limbo das obras de tapa-buracos. Nem o asfalto resiste. Em plena seca, as crateras voltaram a brotar nas ruas, simbolizando o estado de abandono que tomou conta da Capital.
Mas há quem não tenha do que reclamar. Prefeita, vice e secretários receberam aumentos generosos de até 159%, protegidos da inflação e do caos urbano que eles mesmos alimentam. Enquanto isso, o contribuinte paga mais, o empresário recua e a cidade segue se desmanchando sob o peso de uma gestão que confunde arrecadação com competência.
Em Campo Grande, o único setor em alta é o da insatisfação. E, se depender da prefeita, até essa indignação logo será tributada.