A Fazenda em ruínas enquanto a secretária tenta sair como heroína

Campo Grande vive um colapso financeiro histórico e, ironicamente, a
responsável pela derrocada tenta se apresentar como a única personagem
ética da trama. A versão que Márcia Helena Hokama espalha na Secretaria de
Fazenda é quase cinematográfica. Diz que está saindo porque se recusou a
assinar pedalada fiscal, que não há dinheiro para o décimo terceiro, nem para
salários, e que sua saída é um ato de bravura administrativa. A narrativa é
bonita, rende bons aplausos nos bastidores, mas desmorona diante do cenário
caótico que ela mesma ajudou a construir.
Não é coincidência que a licença médica de 15 dias tenha sido anunciada
exatamente quando a gestão precisa fazer malabarismo contábil para pagar o
décimo terceiro. Nem é coincidência que isso ocorra no mesmo momento em
que o gatilho fiscal foi acionado, revelando que a reserva financeira da cidade
chegou a um alarmante 0,60%. A crise não caiu do céu. Ela foi
cuidadosamente regada por decisões desastrosas e por um desmonte
administrativo sem precedentes.
Críticos da gestão, como Pedro Pedrossian Neto, aponta que Márcia nunca
teve preparo para comandar a pasta. Ao assumir, preferiu instalar uma caça às
bruxas digna de folhetim político, perseguindo profissionais qualificados e
enfraquecendo setores vitais da administração pública. O resultado dessa
guerra interna foi a corrosão de estruturas de controle que sustentavam o
equilíbrio fiscal da cidade.
A secretária empenhou-se pessoalmente para derrubar técnicos que
representavam estabilidade institucional. A exoneração de João Batista Pereira
Junior, um nome técnico oriundo do Tribunal de Contas, foi tratada como
questão de honra. A responsabilidade pelo controle de despesas da Saúde e
da Educação foi deixada vaga, e ninguém mais cuidou de fechar as torneiras.
Os gastos passaram a correr livres como água em enxurrada.
O setor jurídico também foi desmontado, justamente o setor que garantia
respeito às normas fiscais e revertia irregularidades. A tesouraria virou uma
porta giratória. A equipe orçamentária foi alterada sem critério. E deste
laboratório de improvisos nasceu o que servidores e especialistas apontam
como o pior orçamento da história de Campo Grande, subestimado em pelo
menos meio bilhão de reais. Meio bilhão. Não é erro. É escolha.
A licença médica da secretária veio à tona no mesmo dia em que se descobriu
seu elegante currículo de viagens internacionais. O problema não são as férias
em si, mas o fato de que, recontratada no fim do ano, ela só teria direito a
descanso a partir de fevereiro de 2026. Mesmo assim, desfrutou de 16 dias na
Europa, recebendo proventos e benefícios. A denúncia é clara. Recebeu
recursos sem poder. E isso não se encerra com atestados nem com
despedidas melodramáticas.
Márcia coleciona investigações no Ministério Público que vão de bônus
questionável a pagamentos por fora da ordem cronológica. A prática de liberar

valores conforme conveniência e afinidade política já rendeu múltiplas
denúncias e deve custar caro juridicamente. Seus aliados garantem que ela
estaria deixando o cargo por princípios. A realidade sugere que ela está
apenas pulando do barco antes que o casco afunde de vez.
A desculpa de que se recusou a assinar pedalada fiscal é a cereja do bolo. A
mesma gestora que desmontou controles internos, ignorou técnicas
orçamentárias e inflou viagens internacionais agora tenta posar como guardiã
da lei. A narrativa foi tão bem ensaiada que alguns chegaram a acreditar. Até
olharem para o rombo.
O município paga hoje o preço de escolhas políticas pequenas, tomadas com
arrogância e incompetência. A cidade enfrenta o fundo do poço financeiro e
administrativo enquanto a secretária tenta sair como a certinha da história. O
problema é que, diante do tamanho do estrago, nem maquiagem técnica
consegue transformar desastre em heroísmo.

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