
Enquanto pequenos empresários mal respiram diante do cerco fiscal, um frigorífico com R$ 270 milhões em dívidas galopa livremente pelos campos da benevolência judicial sul-mato-grossense. A Boibras, empresa situada em São Gabriel do Oeste, virou exemplo clássico de como conexões certas e escritórios bem relacionados fazem milagres, mesmo quando as contas dizem o contrário.
Propriedade de Regis Luis Comarella, figura influente na Fiems e no Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul (Sicadems), a Boibras está em recuperação judicial desde 2023. Acumula débitos milionários com a União, fornecedores e produtores rurais. Mas, ao que parece, isso não impede que obtenha vitórias judiciais relâmpago e uma blindagem que até o mais otimista dos advogados consideraria improvável.
A vara estadual de falências virou porto seguro da empresa. Pedidos que corriam na Justiça Federal, com iminente bloqueio de mais de R$ 150 milhões, foram desviados com maestria para a esfera estadual. De lá, saíram decisões que garantem a permanência dos recursos no caixa da empresa. Afinal, quebrar o frigorífico pode doer mais do que manter os credores à míngua.
Comarella, além de empresário, é ator de bastidor em entidades industriais, e o time de defesa da Boibras é formado por nomes já carimbados em operações da Polícia Federal. Rodrigo Pimentel, filho de desembargador do TJMS, Sideni Soncini Pimentel, e investigado na operação Ultima Ratio, é um dos que representam a empresa. Coincidência? Talvez. Mas quando a fumaça vem com cheiro de carne cara, é bom acender o alerta.
Enquanto a Boibras protela pagamentos, inclusive à União, açougues da rede Big Beef viram seus repasses bloqueados pela Cielo. A fintech só cumpria normas do Banco Central e decisões judiciais federais, mas foi pressionada pela Justiça Estadual a liberar os valores. O vaivém de decisões criou um imbróglio que acabou com a retirada de multa aplicada ao Bradesco — acionista da Cielo — após o juiz reconhecer “equívoco”.
Em paralelo, o plano de recuperação judicial elaborado pela administradora Cury Consultores, do advogado José Eduardo Chemin Cury, deixou a dívida federal fora da conta. Resultado: a empresa segue operando, credores sem receber, e a União chupando dedo. O discurso? Geração de empregos. A realidade? R$ 219 milhões em tributos federais pendurados na broa.
Não bastasse, a narrativa vem pronta: tudo está sendo cumprido, há empregos mantidos, e qualquer crítica é tentativa de criminalizar a advocacia e constranger o Judiciário. Soa bonito. Mas, na prática, a boiada passa enquanto o campo jurídico vai sendo arado com decisões “estrategicamente favoráveis”.
Não é de hoje que certos processos no Estado ganham aroma de churrasco de picanha nobre. E a Boibras não é caso isolado: é só mais um capítulo de uma novela antiga, onde os grandes pecuaristas das decisões sempre escapam do abate.
No fim das contas, o que se vê é um modelo de justiça que, para alguns, funciona como cerca elétrica, mas, para outros, é portão aberto com tapete vermelho.
Se há crise no setor de carnes, ela não parece atingir os que já têm as ferramentas certas para driblar a legalidade com ares de legitimidade.
Voltaremos!!!!