A blindagem desesperada que tenta sufocar a verdade

A movimentação nos bastidores da Prefeitura de Campo Grande revela que a saúde pública virou o maior pesadelo político de Adriane Lopes, e a ordem no Paço é clara. Abafar, segurar, trancar, enterrar qualquer tentativa de investigação que possa expor a dimensão do caos instalado na rede municipal. A prefeita escalou ninguém menos que Ulisses Rocha, secretário de Governo e fiel escudeiro do clã Lopes, para uma verdadeira romaria pelos gabinetes, tentando impedir que vereadores assinem a CPI da Saúde, proposta por Jean Ferreira. O desespero é proporcional ao tamanho da bomba. Afinal, a CPI pretende rastrear justamente o paradeiro dos milhões destinados à saúde, as filas intermináveis, a falta de remédios, as mortes evitáveis e a fantástica aventura contábil que consumiu R$ 156 milhões do Fundo Municipal.

Jean aponta indícios de má gestão, contratos suspeitos e até ambulâncias paradas acumulando poeira enquanto a população sofre. E basta esse cheiro de fiscalização para o Paço entrar em estado de sítio. A prefeita, segundo apuração, ligou pessoalmente para vereadores da base, pedindo fidelidade e silêncio. Quando a ligação da chefe não resolve, entra Ulisses, o bombeiro oficial dessa crise permanente, tentando conter a sangria que escorre das UPAs para a Câmara.

A pressão chegou até o próprio autor da CPI, tamanho o empenho em evitar que a verdade apareça. O objetivo é simples. Sem assinaturas, não há CPI. Sem CPI, não há investigação. Sem investigação, a responsabilidade da gestão fica escondida atrás de discursos protocolares e fotos ensaiadas para redes sociais. Enquanto isso, a realidade insiste em vir à tona. A população segue encarando o desespero diário de procurar atendimento e encontrar falta de médicos, ausência de medicamentos e estruturas saturadas.

O mais irônico é que o próprio Executivo admitiu, em audiência na Câmara, que só haverá medicamentos nos postos em março do ano que vem, como se a cidade pudesse simplesmente aguardar quatro meses para tratar suas dores, infecções e doenças crônicas. A confissão pública de incompetência contrasta com a corrida frenética para impedir que uma CPI faça exatamente o que se espera de um Parlamento. Fiscalizar.

A cidade respira problemas, mas a prioridade da prefeitura é sufocar investigações. A gestão age como se governar fosse administrar danos à imagem e não cuidar de vidas. E, diante de um colapso evidente, o pânico político fala mais alto que qualquer compromisso com a transparência. Em vez de enfrentar os fatos, Adriane prefere montar barricadas.

O resultado dessa operação matemática é simples e trágico. Na conta do governo, vale mais um gabinete confortável do que um paciente atendido. Vale mais um vereador silencioso do que um posto abastecido. Vale mais proteger a gestão do que proteger a população. Campo Grande, mais uma vez, paga caro por uma administração que enxerga a saúde pública como problema político, não como dever constitucional.

Enquanto o Paço articula para salvar a própria pele, quem sangra é a cidade.

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