
Os viadutos de Campo Grande seguem à mercê da sorte e da teimosia da administração municipal. A prefeita Adriane Lopes ignora laudos técnicos, relatórios e cobranças oficiais e deixa para a Justiça a missão de obrigar a Prefeitura a fazer o óbvio. Enquanto isso, motoristas e pedestres atravessam estruturas corroídas, rachadas e cheias de infiltrações como se participassem de um teste de resistência patrocinado pelo poder público.
A promotora Luz Marina Borges Maciel Pinheiro cansou de esperar. Depois de seis anos pedindo providências, decidiu ingressar com quatro ações civis públicas para forçar a Prefeitura a corrigir problemas estruturais nos principais viadutos da cidade. A lista inclui nomes icônicos como o Dib Jorge Abussaf, o Naim Dibo, o Brigadeiro-do-ar José Hélio Macedo Carvalho e o viaduto da UFMS. Todos acumulam erosões, calçadas quebradas, trincas no asfalto e ferragens expostas.
A administração, por sua vez, responde com ofícios protocolares e desculpas burocráticas. O secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Marcelo Miglioli, chegou a afirmar que já havia feito todas as intervenções necessárias. No entanto, novas vistorias apontaram que nada foi resolvido e que os problemas continuam crescendo como feridas abertas na infraestrutura urbana.
O Ministério Público tentou até costurar um Termo de Ajustamento de Conduta em junho de 2025. O encontro terminou em nada, porque a Prefeitura sequer demonstrou interesse em negociar. O Executivo prefere arriscar a vida da população a assumir a responsabilidade de cuidar do patrimônio público.
Os relatórios técnicos não deixam margem para dúvidas. Há infiltrações, afundamento de pistas, corrosão de ferragens e até ocupação irregular debaixo das estruturas por pessoas em situação de rua. A falta de manutenção transforma os viadutos em símbolos de abandono e em riscos potenciais de tragédias anunciadas.
O caso recente do viaduto Naim Dibo, que apresentou buracos e rachaduras visíveis, é apenas um exemplo do que pode se repetir em outras partes da cidade. A diferença é que, se nada for feito, o próximo incidente pode custar vidas, como aconteceu em Belo Horizonte em 2014, quando a queda de um viaduto matou duas pessoas e deixou mais de 20 feridos.
O discurso oficial tenta minimizar os riscos. Mas a realidade dos relatórios mostra que a negligência é generalizada e persistente. O que hoje são trincas e ferrugens pode se transformar em desabamento amanhã. O MPE age preventivamente porque já viu esse filme antes e sabe que a omissão custa caro.
O mais irônico é que a Prefeitura insiste em alegar falta de recursos enquanto gasta milhões em suplementações suspeitas e contratos duvidosos. Quando o assunto é a segurança da população, a gestão prefere ignorar até o alerta de especialistas e a determinação de órgãos de controle.
A cada dia sem manutenção, os viadutos da capital se tornam mais do que passagens urbanas. Viram monumentos da incompetência administrativa e provas de que a atual gestão só age quando é encurralada pela Justiça.
O Ministério Público cumpre seu papel ao buscar a prevenção. Já a Prefeitura insiste em desempenhar o papel de vilã, colocando em risco a vida de milhares de campo-grandenses que dependem dessas estruturas. Em vez de manutenção, entrega descaso. Em vez de transparência, oferece omissão. E em vez de governar, prefere esperar o pior acontecer.