
A campanha eleitoral de 2026 mal começou e os candidatos de Mato Grosso do Sul já transformaram a Justiça em extensão de seus comitês políticos. Até 15 de agosto, quando a propaganda oficial ainda nem estava autorizada, 59 representações relacionadas ao pleito já haviam sido protocoladas. Antes de conquistar o eleitor nas ruas, parte da classe política preferiu iniciar a disputa nos gabinetes dos advogados.
O número representa aumento de 78,8% em comparação com o mesmo período de 2022, quando haviam sido registradas 33 representações. Em 2018, eram apenas 16. Em oito anos, portanto, a quantidade de conflitos eleitorais levados ao Judiciário cresceu 268,8% e se tornou 3,7 vezes maior.
O levantamento considera somente processos classificados como representação na segunda instância da Justiça Eleitoral. Ficaram de fora ações de investigação judicial, impugnações, registros de candidatura, prestações de contas e outras classes processuais. Isso significa que o volume total de disputas relacionadas às eleições é ainda maior do que o retrato apresentado.
Entre os temas estão propaganda antecipada, impulsionamento irregular, pesquisas eleitorais sem registro, levantamentos apontados como fraudulentos, divulgação de fatos considerados inverídicos e desinformação sobre a integridade das eleições. O debate político, que deveria ser travado com propostas e argumentos, foi substituído por denúncias, pedidos de remoção e tentativas de silenciar adversários.
As redes sociais aceleraram esse processo. Em 2018, as disputas ainda estavam distribuídas entre outdoors, pesquisas, eventos e meios tradicionais de propaganda. Em 2026, a internet domina os processos. Cada publicação virou potencial prova judicial, cada crítica pode gerar uma representação e cada equipe de campanha mantém advogados preparados para reagir antes mesmo de o eleitor compreender a discussão.
É evidente que a Justiça Eleitoral precisa agir diante de propaganda ilegal, fraude e desinformação. Liberdade política não autoriza mentira deliberada nem abuso econômico. O problema surge quando os candidatos passam a recorrer ao Judiciário como estratégia ordinária de campanha, tentando obter por decisão judicial aquilo que não conseguem conquistar no confronto público de ideias.
A judicialização precoce também expõe a falta de maturidade de parte dos concorrentes. Políticos que pretendem governar o Estado, elaborar leis e representar pessoas deveriam estar preparados para responder a críticas e sustentar suas posições. Em vez disso, demonstram enorme disposição para processar e pouca coragem para debater.
O crescimento das representações não permite concluir, isoladamente, que ocorreram mais irregularidades em 2026. Pode refletir novas regras, maior fiscalização e facilidade de acesso ao sistema judicial. Ainda assim, a explosão de processos revela uma campanha contaminada pela desconfiança, pela agressividade e pela incapacidade de resolver divergências no espaço democrático.
Quem paga por esse espetáculo é a sociedade. Enquanto candidatos, partidos e coligações mobilizam estruturas jurídicas para guerrear nas redes e nos tribunais, questões essenciais permanecem em segundo plano. Saúde, educação, segurança, emprego e infraestrutura perdem espaço para disputas sobre publicações, impulsionamentose ataques virtuais.
A eleição deveria começar com propostas, mas em Mato Grosso do Sul começou com processos. Se o ritmo continuar, o eleitor terá dificuldade para distinguir quem pretende governar de quem deseja apenas eliminar adversários pela via judicial. A urna ainda é o lugar onde a disputa deve ser decidida. Candidato que precisa transformar cada crítica em ação talvez não tenha preparo para governar o Estado.