
Campo Grande chegou a 1.476 pessoas em situação de rua sem que a Prefeitura soubesse sequer o tamanho real do problema. O primeiro censo desse público só foi apresentado agora, embora uma lei municipal de 2020 já determinasse a realização da contagem a cada dois anos. Na gestão Adriane Lopes, a miséria cresceu diante dos olhos do poder público enquanto a administração permanecia sem dados, sem planejamento e, pelo resultado, sem respostas suficientes.
O levantamento identificou 1.190 homens, 234 mulheres e 52 crianças vivendo nessa condição. Do total, 842 pessoas foram encontradas diretamente nas ruas e outras 634 apareceram nos registros de serviços e instituições de atendimento. São números que desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como impressão exagerada de comerciantes ou moradores. A crise é concreta, numerosa e profundamente humana.
A situação piorou de forma brutal desde que Adriane assumiu a Prefeitura, em abril de 2022. Dados do Cadastro Único apontavam 630 pessoas em situação de rua naquele ano. Em outubro de 2025, o número registrado havia saltado para 1.611, crescimento superior a 150%. Embora o censo atual utilize metodologia própria e não possa ser comparado automaticamente ao Cadastro Único, as duas fontes confirmam a dimensão do abandono acumulado na Capital.
A Prefeitura passou anos administrando no escuro uma crise que se espalhava pelas calçadas, praças e terminais. Sem conhecer o perfil e a localização dessas pessoas, qualquer política pública se reduz a improviso, discurso ou ação emergencial para produzir fotografia durante o frio. Não se combate um problema estrutural com cobertores distribuídos em algumas noites e portas fechadas no restante do ano.
A defensora pública Thaisa Raquel Medeiros de Albuquerque expôs uma realidade constrangedora ao lembrar que Campo Grande não tinha serviço regular nos fins de semana e feriados. A fome, porém, não respeita expediente administrativo. Quem vive na rua também precisa de banho, água, alimentação, banheiro, documentação, saúde e acolhimento aos sábados, domingos e feriados, mesmo quando a Prefeitura decidiu encerrar o atendimento.
O dado mais humilhante para a gestão Adriane é que a contagem não representa uma iniciativa espontânea de eficiência administrativa. O levantamento era uma obrigação prevista em lei desde 2020 e somente saiu do papel após mobilização iniciada pela Defensoria Pública. A Prefeitura precisou ser empurrada para cumprir uma regra elementar que deveria orientar toda a rede de proteção social.
A existência de 52 crianças nessa condição deveria provocar uma reação imediata do poder público. Crianças vivendo nas ruas representam o fracasso simultâneo da assistência social, da habitação, da saúde, da educação e da proteção à infância. Cada menor encontrado nesse cenário é a prova de que o discurso não alcança quem mais precisa da presença do município.
Também é revelador que 57% das pessoas tenham sido encontradas em vias públicas. Essa população permanece exposta à violência, às drogas, às doenças, ao frio, ao calor e à exploração porque a rede de acolhimento não consegue oferecer alternativas suficientes e permanentes. A omissão ainda transfere para comerciantes, moradores e entidades beneficentes um problema que exige coordenação, orçamento e responsabilidade pública.
O censo finalmente entrega à Prefeitura os números que ela passou anos sem produzir. Agora não haverá mais desculpa para fingir desconhecimento. A gestão precisa ampliar o acolhimento, garantir atendimento contínuo, criar estratégias de moradia, saúde mental, tratamento da dependência química, qualificação profissional e reinserção familiar, além de divulgar metas e resultados para que a sociedade acompanhe o destino dos recursos.
Adriane Lopes assumiu uma cidade com uma crise social crescente e permitiu que ela atingisse proporções ainda mais graves sob seu comando. O primeiro censo é importante, mas chega atrasado e revela muito mais do que pessoas invisibilizadas. Revela uma Prefeitura que só começou a contar a miséria depois que ela já havia tomado as ruas.