Pontes da era Puccinelli deixam rastro de ruína e morte

Quatro pontes construídas e inauguradas durante o governo André Puccinelli desabaram em Mato Grosso do Sul. As estruturas sobre os rios Taquari, do Peixe, Santo Antônio e dos Velhos foram entregues entre 2009 e 2014, período em que Puccinelli comandava o Estado. A coincidência administrativa é perturbadora e exige respostas que não podem continuar soterradas sob concreto, burocracia e silêncio.

O fato de todas terem sido construídas durante a mesma gestão não permite atribuir automaticamente responsabilidade pessoal ao ex-governador. Mas também seria absurdo tratar quatro colapsos como episódios isolados, sem investigar o modelo de contratação e fiscalização adotado naquele período.

A ponte sobre o Rio Santo Antônio, em Guia Lopes da Laguna, custou R$ 1.252.913,52 e foi inaugurada em abril de 2012. Menos de quatro anos depois, desabou. O laudo técnico apontou colapso progressivo, extensão insuficiente para o rio, erosão do aterro, deslocamento da estrutura de sustentação, apoio precário das vigas, ligação transversal deficiente e proteção inadequada de componentes metálicos.

Na época, o próprio diretor-presidente da Agesulreconheceu a existência de um projeto falho e estimou prejuízo de aproximadamente R$ 1,3 milhão. O Estado chegou a anunciar auditoria em outras pontes construídas com o mesmo modelo. A pergunta inevitável é por que uma obra tão vulnerável foi aprovada, recebida e inaugurada como se estivesse pronta para resistir às condições do local.

A ponte sobre o Rio dos Velhos, em Jardim, foi inaugurada em 2014 e sofreu colapso parcial em fevereiro de 2018. A perícia concluiu que a estrutura havia sido mal dimensionada, possuía projeto inadequado e não atendia aos requisitos mínimos de segurança e estabilidade. As fundações foram instaladas em terreno arenoso e a configuração da obra favorecia obstruções durante as enchentes.

O projeto precisou ser refeito e a ponte, que tinha 48 metros, foi ampliada para 60 metros. A reconstrução confirma que não se tratava de um pequeno reparo provocado pelo desgaste natural, mas de uma estrutura que exigiu redimensionamento para se adequar à vazão do rio. Se a solução posterior era necessária, cabe explicar por que não foi adotada antes da inauguração.

A ponte sobre o Rio do Peixe, na MS 080, foi concluída em dezembro de 2010 e desabou parcialmente em fevereiro de 2026 durante a passagem de uma carreta bitrem. Havia chuvas intensas, rachaduras nas cabeceiras e restrições de tráfego. Mesmo que o peso do veículo tenha contribuído para o colapso, permanece a obrigação de esclarecer a condição estrutural da ponte, a fiscalização realizada e as medidas tomadas antes da queda.

A tragédia mais recente ocorreu neste agosto de 2026, quando a ponte João Wenceslau Leite de Barros, sobre o Rio Taquari, na região de Coxim, desabou e matou um caminhoneiro. Construída entre 2008 e 2009, a obra teve proposta inicial de aproximadamente R$ 1,84 milhão e valor divulgado na inauguração em torno de R$ 2,1 milhões. Ainda não existe conclusão técnica segura sobre a causa, mas a morte torna intolerável qualquer demora na apuração.

O CREA de Mato Grosso do Sul começou a levantar empresas, engenheiros, projetos, manutenções e Anotações de Responsabilidade Técnica. É exatamente essa cadeia que precisa ser exposta. A investigação deve alcançar a construtora, os projetistas, os responsáveis técnicos, os fiscais da Agesul, quem aprovou as medições, quem recebeu as obras e quem deveria ter realizado inspeções ao longo dos anos.

Pontes não desabam por fatalidade administrativa e responsabilidades não podem desaparecer correnteza abaixo. Em dois casos, os laudos já apontaram falhas graves. Nos outros, as investigações ainda precisam revelar as causas. 

Quatro estruturas da mesma época caíram, milhões de reais foram consumidos e uma vida foi perdida. Se o Estado não descobrir quem errou, ficará a certeza amarga de que, em Mato Grosso do Sul, até as pontes caem, mas ninguém jamais responde.

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