Políticos usam Deus para enganar fiéis

Passar a perna nos outros enquanto se carrega a Bíblia debaixo do braço não é fé, é fraude moral. A reflexão atinge em cheio uma espécie conhecida da política brasileira, o candidato que fala em Deus com voz embargada, pede oração aos fiéis e desaparece dos princípios cristãos assim que conquista o mandato.

Muitos políticos que se dizem crentes só procuram a palavra de Deus quando precisam de votos, apoio ou perdão público. Transformam igrejas em comitês, púlpitos em palanques e irmãos de fé em cabos eleitorais. A religião, para eles, não orienta a conduta. Serve apenas como embalagem eleitoral.

Na prática, alguns desses personagens colecionam justamente os comportamentos que fingem condenar. São egoístas quando o interesse coletivo ameaça seus privilégios, vaidosos quando exigem aplausos por obrigações básicas, avarentos quando tratam dinheiro público como propriedade particular e soberbos quando acreditam estar acima de qualquer questionamento.

A humildade cristã desaparece diante da primeira câmera. O político que afirma ser apenas um instrumento de Deus passa a se comportar como escolhido intocável, cercado de bajuladores e incapaz de admitir um erro. Confunde mandato com unção, crítica com perseguição e investigação com ataque espiritual.

A avareza também encontra terreno fértil nessa fé conveniente. Há quem pregue desapego no domingo e passe o restante da semana disputando cargos, verbas, contratos e vantagens. Fala sobre servir ao próximo, mas serve primeiro a si mesmo, à família, aos aliados e aos financiadores de sua permanência no poder.

A vaidade completa o espetáculo. São fotografias em cultos, vídeos com pastores, versículos nas redes sociais e declarações cuidadosamente ensaiadas. Tudo parece profundamente espiritual até o momento em que a população exige coerência, transparência e honestidade. Então a Bíblia fecha, o sorriso some e começam as desculpas.

Nem toda pessoa pública que declara sua fé age dessa maneira. O problema está nos profissionais da exploração religiosa, que aprenderam a usar o nome de Deus como escudo contra críticas e senha para conquistar a confiança de comunidades inteiras. Eles não evangelizam a política. Apenas comercializam a devoção alheia.

O eleitor religioso precisa compreender que repetir versículos não é certificado de caráter. A fé de um candidato deve ser medida por suas escolhas, pela maneira como trata os mais vulneráveis, pelo respeito ao dinheiro público e pela coragem de agir corretamente quando não há câmera, plateia ou eleição à vista.

Quem engana, humilha, mente, explora e passa a perna nos outros pode frequentar todos os cultos, gravar todas as orações e pronunciar o nome de Deus em cada discurso. Ainda assim, continuará revelando pela prática aquilo que tenta esconder com palavras. A santidade eleitoral costuma durar somente até o fechamento das urnas.

Deus não precisa de marqueteiro, e a fé não pode continuar servindo de esconderijo para egoísmo, vaidade, avareza e soberba. O político que invoca o céu para conquistar poder, mas transforma o mandato num altar para o próprio ego, não representa os valores cristãos. Representa apenas a velha hipocrisia usando roupa de domingo.

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