
A Polícia Federal bateu à porta da vice de Campo Grande, Camilla Nascimento, e expôs mais um capítulo vergonhoso da gestão municipal. A Operação Presciência cumpriu mandados na residência e no gabinete da atual secretária de Assistência Social para apurar possíveis irregularidades na aplicação de R$ 1,2 milhão da Previdência dos servidores no Banco Master.
A investigação alcança o período em que Camilla presidia o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande. Foi durante sua administração que o dinheiro destinado a garantir aposentadorias e pensões acabou aplicado em Letras Financeiras do Master, investimento com vencimento previsto para abril de 2029 e sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos.
Ao todo, seis mandados de busca e apreensão foram expedidos pela 3ª Vara Federal de Campo Grande. A Justiça também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. A Polícia Federal apura, em tese, possíveis crimes de gestão temerária, corrupção passiva e corrupção ativa, acusações suficientemente graves para demolir qualquer tentativa de tratar o episódio como mera divergência contábil.
A apuração nasceu de um relatório de auditoria do Ministério da Previdência Social. O documento apontou possíveis irregularidades no processo decisório que levou o IMPCG a colocar recursos previdenciários no Banco Master. Segundo a investigação, procedimentos técnicos e administrativos podem ter sido ignorados por ação ou omissão, expondo o patrimônio dos servidores a um risco que jamais deveria ter sido tolerado.
Dinheiro previdenciário não é ficha para aposta financeira nem reserva disponível para aventuras de gestores públicos. Cada centavo pertence a servidores que trabalharam durante décadas e dependem desses recursos para receber aposentadorias e pensões. Quem administra esse patrimônio tem obrigação de agir com prudência absoluta, transparência e responsabilidade, não com uma confiança que só se revela desastrosa quando a Polícia Federal aparece.
A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, mostrou o tamanho do perigo. O investimento chegou ao valor atualizado de aproximadamente R$ 1,4 milhão e poderia permanecer preso por anos. A Prefeitura precisou recorrer à Justiça para compensar o crédito com recursos de empréstimos consignados que seriam repassados à instituição financeira.
O município conseguiu recuperar judicialmente o valor aplicado, acrescido da correção. A devolução do dinheiro, contudo, não apaga as circunstâncias que levaram à operação. Recuperar um recurso colocado em risco não transforma uma decisão questionável em ato de boa gestão. O resultado posterior pode afastar o prejuízo financeiro, mas não elimina a necessidade de investigar responsabilidades.
A defesa da Prefeitura sustenta que a aplicação observou as normas do Conselho Monetário Nacional e a política de investimentos aprovada pelo conselho do IMPCG. A explicação terá de sobreviver agora ao exame dos documentos, equipamentos e dados apreendidos pela Polícia Federal. Nota oficial pode produzir versão conveniente, mas não substitui prova nem encerra investigação.
O episódio se torna ainda mais grave porque entidades representativas dos servidores já haviam alertado sobre os riscos de colocar recursos previdenciários no Banco Master. Se esses avisos foram ignorados, a administração precisa explicar quais análises sustentaram a escolha, quem recomendou o investimento, quem o aprovou e por que uma aplicação sem garantia foi considerada adequada para o dinheiro dos aposentados.
Camilla Nascimento deixou a presidência do IMPCG e chegou ao segundo cargo mais importante da Prefeitura, mas as decisões tomadas no passado não desapareceram com a mudança de gabinete. A Operação Presciência mostra que o poder não concede salvo conduto nem transforma dúvida em esquecimento. Quando a Polícia Federal precisa procurar respostas na casa e no gabinete da vice, Campo Grande tem o direito de exigir muito mais do que silêncio, notas genéricas e desculpas ensaiadas.