
Existe uma parcela da população que enfrenta uma batalha diária muito antes de qualquer disputa política. São as mães atípicas, mulheres que dedicam praticamente toda a vida aos filhos com deficiência e que dependem, muitas vezes, do apoio do poder público para garantir tratamentos, alimentação especial, medicamentos, fraldas e outros insumos indispensáveis. Em Campo Grande, porém, elas seguem acumulando frustrações diante de uma gestão que vira as costas para suas reivindicações.
O mais recente episódio reforça essa sensação de abandono. A prefeita Adriane Lopes não compareceu à audiência de conciliação movida pela professora e mãe atípica Elisângela Silva de Souza, que pede indenização por danos morais após ter sido agredida por um guarda municipal durante um protesto realizado na abertura do Natal dos Sonhos, em novembro do ano passado. Diante da ausência, o juiz determinou que a prefeita apresente justificativa no prazo de 15 dias, sob pena de aplicação de multa por ato atentatório à dignidade da Justiça.
O processo tem origem em um episódio que já havia causado forte repercussão. Durante a manifestação pacífica, Elisângela foi empurrada por um agente da Guarda Civil Metropolitana e caiu no asfalto. As imagens circularam amplamente nas redes sociais e despertaram indignação justamente porque a vítima não era uma criminosa nem uma ameaça à ordem pública, mas uma mãe que protestava em defesa dos direitos do próprio filho e de tantas outras crianças em situação semelhante.
A situação ganhou contornos ainda mais delicados quando, dias depois, a prefeita fez declarações públicas sobre os manifestantes. Na ação judicial, Elisângela sustenta que essas manifestações contribuíram para um ambiente de difamação e perseguição, culminando em ataques à sua imagem e ao que classificou como um verdadeiro linchamento moral nas redes sociais.
Independentemente do desfecho do processo, o caso revela um problema muito maior. As mães atípicas de Campo Grande não começaram a protestar por acaso. Há anos denunciam dificuldades para obter fraldas, dietas especiais, medicamentos, terapias e o cumprimento de decisões judiciais relacionadas ao atendimento de crianças com deficiência.
Quem acompanha essa realidade sabe que essas mulheres não escolhem estar nas ruas. Elas chegam ao protesto depois de esgotarem pedidos administrativos, enfrentarem filas, acumularem gastos próprios e conviverem diariamente com a angústia de ver direitos básicos de seus filhos dependerem de sucessivas cobranças ao poder público.
Por isso, causa perplexidade que um conflito dessa natureza tenha terminado nos tribunais. Em vez de construir pontes com um dos grupos mais vulneráveis da sociedade, a administração municipal acabou envolvida em um episódio que expôs ainda mais o desgaste na relação com essas famílias.
Uma gestão pública comprometida com a inclusão deveria enxergar as mães atípicas como parceiras na construção de políticas públicas. São elas que conhecem de perto as dificuldades enfrentadas por crianças com deficiência e podem contribuir para aperfeiçoar programas e serviços. Transformar esse diálogo em conflito representa uma oportunidade desperdiçada.
Também chama atenção o simbolismo da ausência na audiência. Ainda que existam justificativas jurídicas ou compromissos previamente assumidos, episódios como esse acabam ampliando o distanciamento entre a administração municipal e pessoas que buscavam justamente reconhecimento, respeito e escuta.
Campo Grande precisa avançar muito na construção de políticas voltadas às pessoas com deficiência e às suas famílias. Isso passa por garantir atendimento digno, cumprir decisões judiciais, fortalecer a rede de assistência e, principalmente, tratar com respeito quem dedica a própria vida ao cuidado de filhos que dependem diariamente do apoio do Estado. Enquanto essa mudança não acontecer, continuará sendo difícil convencer essas mães de que elas realmente são prioridade para a atual gestão.