Prefeitura nada em bilhões enquanto a população afunda no abandono

Campo Grande arrecadou R$ 3,637 bilhões apenas nos seis primeiros meses de 2026, mas continua incapaz de resolver problemas básicos que castigam diariamente a população. Postos de saúde sem medicamentos e ruas tomadas por buracos revelam uma cidade em que o dinheiro entra nos cofres públicos, mas não chega com a mesma eficiência a quem paga a conta.

Somente o IPTU rendeu R$ 439,8 milhões entre janeiro e junho. É uma fortuna retirada diretamente do bolso dos proprietários de imóveis, muitos deles obrigados a conviver com vias destruídas, bairros abandonados e serviços públicos precários. A cobrança é pontual e implacável, mas não existe retorno.

O balanço municipal ainda registrou superávit de R$ 297 milhões considerando as despesas liquidadas. Em linguagem simples, a Prefeitura arrecadou mais do que efetivamente gastou no período. O resultado pode parecer positivo nas planilhas, mas se transforma em provocação quando comparado à realidade de quem procura remédio em uma unidade de saúde e volta para casa de mãos vazias.

A Saúde aparece com R$ 1,595 bilhão em despesas empenhadas e R$ 869,5 milhões efetivamente liquidados. São números gigantescos, suficientes para exigir uma explicação séria sobre a falta recorrente de medicamentos, insumos e condições adequadas de atendimento. Não basta anunciar bilhões se o paciente continua peregrinando entre unidades em busca do básico.

No Urbanismo, foram empenhados R$ 459 milhões e liquidados R$ 265,2 milhões no primeiro semestre. Mesmo assim, os buracos continuam espalhados por bairros e avenidas, danificando veículos, provocando acidentes e transformando deslocamentos simples em verdadeiras provas de resistência. Onde está o resultado concreto de tanto dinheiro?

As receitas tributárias chegaram a R$ 1,496 bilhão, enquanto as transferências correntes somaram outros R$ 1,507 bilhão. Portanto, não se trata de uma Prefeitura sem recursos. O município arrecada muito, recebe muito e movimenta cifras bilionárias. O que falta é transformar essa capacidade financeira em serviços públicos minimamente dignos.

É verdade que empenhar, liquidar e pagar representam etapas diferentes da execuçãoorçamentária. Mas nenhuma explicação contábil consegue esconder o essencial. Orçamento público existe para atender pessoas, e não apenas para produzir relatórios tecnicamente bem apresentados enquanto a cidade enfrenta problemas que já se tornaram crônicos.

O cidadão não mede a eficiência da administração pela quantidade de páginas do Diogrande. Ele avalia a gestão quando encontra o medicamento prescrito, quando consegue trafegar sem cair em uma cratera e quando percebe que o imposto pago retornou em forma de serviço. Se isso não acontece, o superávit deixa de ser motivo de comemoração.

A Prefeitura precisa explicar por que uma cidade que arrecada bilhões continua falhando no essencial. Precisa demonstrar onde os recursos estão sendo aplicados, quais resultados foram entregues e por que problemas antigos sobrevivem a sucessivos contratos e aditivos. Transparência não é divulgar uma montanha de números, mas mostrar o que cada cifra mudou na vida da população.

Campo Grande não sofre por falta de dinheiro. Sofre porque a abundância registrada nas contas públicas contrasta violentamente com a pobreza dos serviços oferecidos. Quando há milhões sobrando no balanço e medicamentos faltando nos postos, o problema não está na arrecadação. Está na gestão que cobra como cidade rica e entrega serviços de uma cidade abandonada.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br