
O céu do Hemisfério Norte será palco, na próxima quarta-feira, dia 12 de agosto, de um eclipse solar total considerado uma oportunidade científica rara. Durante alguns minutos, a Lua passará entre a Terra e o Sol, bloqueará completamente a luz solar em uma estreita faixa do planeta e permitirá a observação direta da coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol, normalmente ofuscada pelo brilho da estrela.
O evento não poderá ser observado diretamente do território brasileiro, nem na forma total nem parcial. A faixa de visibilidade ficará concentrada no Hemisfério Norte. No Brasil, a alternativa será acompanhar as transmissões ao vivo da NASA. O próximo eclipse solar total visível do território brasileiro está previsto somente para 2045.
Horários do eclipse
Os horários a seguir estão convertidos para o horário de Brasília, que fica três horas atrás do Tempo Universal Coordenado, conhecido pela sigla UTC.
O início do eclipse parcial em algum ponto da Terra ocorrerá às 12h34, no horário de Brasília, 11h34 (de MS).
O início da totalidade, quando o Sol ficará completamente encoberto em algum ponto do planeta, ocorrerá às 12h58 (de MS).
O máximo do eclipse será registrado por volta das 13h46 (de MS)e o fim da totalidade ocorrerá às 14h34.
O fim do eclipse parcial em todo o planeta ocorrerá às 15h58.
O eclipse completo, considerando todas as fases e todos os pontos da Terra, terá duração aproximada de quatro horas e 24 minutos. A totalidade, porém, será muito mais curta. No ponto de maior duração, o Sol ficará completamente encoberto por aproximadamente 2 minutos e 18 segundos.
O máximo do eclipse ocorrerá por volta de 17h46 no horário UTC, ou 13h46 no horário de Mato Grosso do Sul, sobre o Atlântico Norte, nas proximidades da Islândia. A duração variará conforme a posição do observador. Em algumas áreas, a totalidade será inferior a dois minutos.

Onde o fenômeno poderá ser visto
A totalidade, fase em que o disco solar desaparece completamente atrás da Lua, será observável em uma faixa que passará pelo norte da Rússia, pela Groenlândia, pela Islândia, pelo Oceano Atlântico Norte, pelo norte da Espanha e por uma pequena área de Portugal.
A fase parcial poderá ser acompanhada em partes da Europa, do noroeste da África, do Canadá, do Alasca e de outras regiões do Hemisfério Norte. Em determinadas áreas da Europa, o eclipse ocorrerá próximo do pôr do sol, criando a possibilidade de observação do chamado eclipse no entardecer.
Entre as cidades destacadas pela NASA estão Reykjavík, na Islândia; León, na Espanha; e Madri, também na Espanha.
Em Reykjavík, a totalidade começará às 17h48 no horário local e durará aproximadamente um minuto.
Em León, o fenômeno total ocorrerá entre 20h28 e 20h30, no horário local.
Em Madri, o eclipse será parcial, mas poderá atingir até 99% de cobertura do disco solar.
Na Espanha, a faixa de totalidade atravessará diversas cidades e regiões, incluindo áreas próximas a Oviedo, León, Burgos, Bilbao, Zaragoza e Valência. Em Burgos, por exemplo, a fase total deverá durar cerca de 1 minuto e 48 segundos.
No Brasil, cidades como Campo Grande, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Salvador não estarão na faixa de visibilidade. O fenômeno também não será visto de forma parcial no território brasileiro. A transmissão pela internet será, portanto, a principal forma de acompanhamento para os brasileiros.
O que a NASA vai fazer
A NASA financiará uma das maiores campanhas científicas organizadas para um eclipse solar. O objetivo é aproveitar o bloqueio temporário da luz solar para estudar tanto a estrela quanto as respostas da atmosfera terrestre.
Avião vai perseguir a sombra da Lua
Um avião de pesquisa WB-57, operado em grande altitude, voará a aproximadamente 50 mil pés, o equivalente a cerca de 15 quilômetros de altitude, para acompanhar a sombra da Lua.
A aeronave transportará quatro câmeras capazes de registrar imagens em diferentes comprimentos de onda da luz visível e do infravermelho. Os equipamentos deverão produzir aproximadamente 20 imagens por segundo, registrando estruturas, fluxos de matéria e mudanças rápidas na coroa solar.
Como o avião viajará a cerca de 460 milhas por hora, aproximadamente 740 quilômetros por hora, os pesquisadores esperam ampliar o tempo de observação da coroa solar para quase três minutos, período superior ao disponível para observadores em solo.
A altitude também permitirá observar comprimentos de onda infravermelhos que são parcialmente absorvidos pela atmosfera terrestre.
Os pesquisadores pretendem investigar como a coroa solar é aquecida a temperaturas próximas de 1 milhão de graus, como se formam e evoluem as proeminências solares, de que maneira o material da coroa se relaciona com o vento solar e como partículas e energia deixam o Sol.
A coroa solar é especialmente importante para a ciência porque fica próxima da origem do vento solar, um fluxo contínuo de partículas que pode afetar satélites, astronautas, sistemas de comunicação, redes elétricas e equipamentos de navegação.
O avião também deverá contribuir para a produção de imagens de alta resolução da coroa solar em diferentes faixas do espectro. A observação em luz visível e infravermelha poderá ajudar os cientistas a analisar a temperatura, a estrutura e o movimento do material existente na atmosfera externa do Sol.
Balões vão investigar a atmosfera
Outra frente da pesquisa será o Nationwide Eclipse Ballooning Project, projeto apoiado pela NASA e coordenado pela Universidade Estadual de Montana.
Equipes formadas por estudantes e pesquisadores lançarão 86 balões científicos na Islândia e na Espanha antes, durante e depois do eclipse solar.
Na Islândia, dois grupos deverão operar até 80 balões. Os lançamentos começarão 18 horas antes do eclipse e continuarão por até oito horas depois do fenômeno.
Os instrumentos estudarão a chamada camada-limite atmosférica, que é a porção mais baixa da atmosfera e entra em contato direto com a superfície terrestre.
Na Espanha, seis balões serão equipados com câmeras de 360 graus para registrar a passagem da sombra da Lua sobre a superfície. Os equipamentos também medirão o ozônio atmosférico, cuja formação depende da radiação solar.
Experimentos semelhantes realizados durante eclipses de 2023 e 2024 indicaram que a camada-limite diminuiu de espessura em locais de céu aberto, mas não apresentou o mesmo comportamento em áreas nubladas.
A campanha de 2026 permitirá verificar se esse resultado se repete em outro período do ano e em uma região com características atmosféricas diferentes.

Quais fenômenos meteorológicos poderão ser estudados
O eclipse não provoca uma mudança climática permanente, mas funciona como um experimento natural. Em poucos minutos, uma área da atmosfera passa por uma redução brusca na radiação solar, semelhante a uma transição acelerada do dia para a noite.
Os pesquisadores poderão observar como a atmosfera responde a essa alteração repentina e comparar os dados com modelos meteorológicos e climáticos.
Queda rápida de temperatura
Com a interrupção temporária da luz solar, a superfície terrestre deixa de receber energia e pode esfriar rapidamente.
A intensidade da queda dependerá do horário, da cobertura de nuvens, da umidade, do tipo de solo e da quantidade de radiação bloqueada.
A observação ajudará a compreender como a superfície terrestre responde a mudanças repentinas no aquecimento, processo importante para modelos de temperatura e circulação atmosférica.
Alterações no vento
O resfriamento localizado poderá modificar as diferenças de pressão e temperatura próximas ao solo.
Como consequência, poderão ocorrer mudanças temporárias na velocidade e na direção dos ventos, especialmente na camada mais baixa da atmosfera.
Essas alterações não significam a formação automática de uma tempestade, mas ajudam os pesquisadores a analisar como a circulação do ar reage a um resfriamento rápido e concentrado.
Contração da camada-limite
Durante o dia, o aquecimento do solo favorece movimentos verticais do ar e aumenta a espessura da camada-limite.
Quando o eclipse reduz a entrada de energia solar, essa camada pode se contrair, alterando a mistura de calor, umidade e poluentes próximos à superfície.
A NASA pretende comparar o comportamento observado na Islândia com os resultados de eclipses anteriores e verificar a influência das nuvens e da duração do período de escuridão.
Ondas gravitacionais atmosféricas
Eclipses também podem produzir perturbações que se propagam pela atmosfera, conhecidas como ondas gravitacionais atmosféricas.
Essas ondas não têm relação com as ondas gravitacionais previstas pela teoria da relatividade. Nesse caso, trata-se de oscilações do ar provocadas por mudanças rápidas de temperatura e pressão.
O acompanhamento dessas ondas poderá ajudar a compreender a conexão entre a baixa atmosfera e regiões mais altas, onde circulam sinais de rádio e operam satélites.
Redução temporária do ozônio
O ozônio é produzido por reações químicas que dependem da luz solar. Por isso, os balões lançados na Espanha tentarão medir se a redução momentânea da radiação provocará mudanças detectáveis na concentração de ozônio.
Observações anteriores apontaram diminuição do ozônio durante a totalidade do eclipse de 2024. A nova campanha permitirá verificar se o efeito se repete sob outras condições de estação, horário e umidade.
Resposta da ionosfera
A radiação solar ioniza partículas na alta atmosfera e contribui para a formação da ionosfera. Quando a luz solar é bloqueada, essa região pode sofrer alterações temporárias na densidade de elétrons.
A ionosfera influencia a propagação de ondas de rádio e o funcionamento de sistemas de navegação, incluindo o GPS. Por isso, eclipses são usados para estudar possíveis perturbações em comunicações, navegação e tecnologias dependentes de sinais atmosféricos.
O que o eclipse poderá ajudar a prever
Os dados coletados durante o eclipse não permitirão prever diretamente chuvas, tempestades ou frentes frias específicas.
A principal contribuição será melhorar os modelos que descrevem como a energia solar influencia o Sol, a atmosfera terrestre e o chamado clima espacial. A análise da coroa solar poderá ajudar a aperfeiçoar previsões de ejeções de massa coronal e do vento solar.
Esses fenômenos podem atingir a Terra e causar auroras, interferências em rádio, falhas ou alterações em satélites, problemas de navegação e perturbações em redes elétricas.
Os dados atmosféricos também poderão contribuir para o desenvolvimento de modelos mais precisos sobre variações rápidas de temperatura, circulação do ar na camada mais baixa da atmosfera, formação e dissipação de nuvens, propagação de ondas atmosféricas, distribuição de umidade e poluentes, comportamento do ozônio e efeitos da radiação solar sobre a ionosfera.
As informações também poderão ajudar a compreender a propagação de sinais de rádio e GPS.
Assim, o eclipse será menos uma ferramenta para prever imediatamente o tempo e mais uma oportunidade de testar modelos meteorológicos e atmosféricos em uma situação controlada, rara e de curta duração.
Transmissão e segurança
A NASA transmitirá o eclipse ao vivo a partir das 13h15 no horário de MS. A transmissão terá imagens de diferentes pontos da faixa de totalidade, incluindo a Islândia e a Espanha, além de entrevistas com especialistas.
Para quem estiver em uma região onde o eclipse será parcial, a orientação é usar óculos próprios para observação solar, certificados segundo a norma ISO 12312-2.
Óculos de sol comuns não protegem os olhos.
Também não se deve olhar para o Sol através de câmeras, binóculos ou telescópios usando apenas óculos de eclipse. Esses equipamentos concentram a radiação solar e podem causar lesões graves.
Filtros solares apropriados devem ser instalados na parte frontal dos instrumentos.
No Brasil, onde o fenômeno não será visível no céu, a recomendação é acompanhar as imagens oficiais da NASA e de observatórios astronômicos, sem tentar observar o Sol diretamente.