Reajuste em migalhas: Prefeitura parcela até a dignidade dos servidores

A prefeita Adriane Lopes conseguiu um feito raro na administração pública: transformar um reajuste já insuficiente em um símbolo de desrespeito aos servidores municipais. O anúncio dos 4,39% não trouxe alívio, nem reconhecimento. Trouxe indignação.

Como se não bastasse o índice estar muito abaixo das perdas acumuladas ao longo dos últimos anos, a prefeitura decidiu fatiar até mesmo essa recomposição modesta. Serão apenas 2,20% em agosto e os outros 2,19% empurrados para janeiro de 2027. Na prática, o servidor recebe metade agora e a promessa da outra metade depois. É o reajuste a prestação.

A pergunta que fica é simples: alguém consegue parcelar a conta do supermercado? A farmácia aceita receber metade hoje e metade daqui a seis meses? O posto de combustível congela os preços até janeiro de 2027? Claro que não. A inflação não parcela seus aumentos. Ela cobra à vista. Mas a prefeitura decidiu parcelar justamente aquilo que deveria ajudar o trabalhador a enfrentar o aumento do custo de vida.

O mais revoltante é que esse mesmo discurso de contenção fiscal desaparece quando o assunto envolve o alto escalão. Para alguns setores da administração sempre existe dinheiro. Para quem atende a população, trabalha nas escolas, postos de saúde, secretarias e serviços essenciais, sobra a velha desculpa da responsabilidade fiscal.

A mensagem transmitida pela gestão é clara: quando se trata dos servidores efetivos, qualquer centavo vira problema. Quando se trata da estrutura política, as portas do cofre parecem se abrir com muito mais facilidade.

O reajuste anunciado sequer recompõe as perdas acumuladas e ainda chega mutilado. Não representa valorização. Não representa reconhecimento. Representa apenas a tentativa de vender como conquista aquilo que, na prática, é insuficiente para recuperar o poder de compra destruído pela inflação.

Enquanto isso, milhares de servidores seguem sustentando o funcionamento da prefeitura todos os dias, enfrentando sobrecarga, falta de estrutura e salários cada vez mais corroídos. São eles que mantêm a máquina pública funcionando. São eles que atendem a população. São eles que garantem que os serviços continuem existindo.

Mas, mais uma vez, ficaram no fim da fila.

Adriane Lopes não entregou um reajuste. Entregou um parcelamento da insatisfação. E mostrou que, para sua gestão, até a valorização do servidor pode esperar.

Compartilhe
Também estamos de olho
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br