Tecnologia para punir, não para consertar

Enquanto Campo Grande afunda em buracos e motoristas se viram em meio ao caos do trânsito, a prefeita Adriane Lopes (PP) escolheu um caminho mais rentável: triplicar o número de equipamentos de fiscalização eletrônica. São câmeras, radares, lombadas e até armadilhas móveis — tudo por R$ 50 milhões em dois anos. A cidade pode até estar esburacada, mas o que não falta é foco quando o assunto é arrecadar.

A sanha arrecadatória da prefeita foi tamanha que irritou até aliados de primeira hora, como o vereador bolsonarista Rafael Tavares (PL), que classificou a iniciativa como “indústria da multa” e não poupou críticas nas redes sociais. “Parece piada, mas não é”, disparou o parlamentar, que, até então, vinha fazendo vista grossa para o estado calamitoso das vias urbanas.

Em sua tentativa de frear a escalada punitiva da gestão Adriane, Tavares protocolou um projeto de lei que proíbe o uso de câmeras de monitoramento urbano para aplicação de multas de trânsito. Segundo ele, os equipamentos deveriam servir à segurança da população, e não ao caixa da prefeitura.

E ele não está errado. Enquanto a prefeita planeja expandir de 93 para 350 as faixas fiscalizadas eletronicamente, a cidade segue atolada em crateras, com sinalização precária e sem políticas públicas de mobilidade minimamente eficazes. Mas, para punir o motorista que ultrapassa 50 km/h em trecho mal sinalizado, aí sim a gestão é célere, moderna e high-tech.

A justificativa da prefeitura? Fiscalizar e prevenir. A realidade? Multar para arrecadar. Não por acaso, entre os novos brinquedinhos, estão três radares móveis — desses que aparecem e somem conforme a conveniência do dia —, perfeitos para garantir o susto e o boleto.

O projeto de Tavares ainda alerta que a utilização dessas câmeras para lavrar infrações fere o devido processo legal e restringe a ampla defesa do cidadão, além de extrapolar os limites da atuação administrativa do poder público. E mais: cita jurisprudência do STF para reforçar o argumento de que o Estado não pode, sob o pretexto de disciplinar, agir como um cobrador eletrônico disfarçado.

A ironia, claro, está no timing. Em plena crise de credibilidade, com a população exausta de tapar buraco com criatividade e paciência, a prefeita resolve investir milhões não em recapeamento, mas em tecnologia de punição. É o governo do tapa na carteira, não no asfalto.

Caso o projeto seja aprovado, Campo Grande pode virar referência nacional — não por inovar na mobilidade urbana, mas por ser uma das primeiras capitais a frear o ímpeto arrecadatório travestido de fiscalização.

E enquanto a prefeita Adriane Lopes posa para fotos e evita o debate, segue sem responder a pergunta que ecoa entre os motoristas da cidade: onde está a gestora quando a cidade precisa de manutenção, e não de mais um boleto? A resposta, ao que tudo indica, está atrás da próxima câmera.

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