
Demorou mas o vereador Flávio Cabo Almi resolveu descobrir que a saúde de Campo Grande está em colapso. E não foi pela fila interminável de exames, nem pela falta de médicos nos postos ou pelo sumiço de remédios nas prateleiras. O despertar veio porque o pai de um amigo ficou vegetando após passar quatro dias em uma UPA sem conseguir vaga em uma UTI. Só agora o parlamentar resolveu usar o microfone da Câmara para falar da CPI da Saúde.
O discurso até poderia comover se não fosse tardio. Afinal, há quanto tempo a população implora por atendimento digno, enquanto vereadores se escondem atrás de discursos mornos e conivência silenciosa. Agora que um caso bateu na porta da amizade do vereador, ele enfim encontrou a indignação que faltava.
Durante meses o caos da saúde tem sido estampado em manchetes e gritos de pacientes desesperados nos corredores lotados. R$ 2 bilhões por ano circulam no orçamento da Sesau e a realidade continua sendo a mesma: leitos escassos, filas de espera que mais parecem condenações e famílias enterrando seus mortos sem respostas.
Flávio Cabo Almi questionou onde está a transparência e por que a Câmara ainda não foi chamada a debater o destino desses bilhões. Só esqueceu de dizer que ele e os colegas poderiam ter exigido isso há muito tempo, mas preferiram adiar a indignação para o dia em que o drama bateu em sua roda de amizade.
O vereador afirmou ter assinado um pedido para a CPI da Saúde avançar, mas deixou claro que só agora o estresse parece ser insuportável. O povo pergunta: só agora, vereador? Só agora o senhor percebeu que o comitê improvisado de Adriane Lopes não resolve nada, que não há secretário, que não há comando, que não há luz no fim do túnel?
Enquanto milhares de campo-grandenses agonizam em filas e improvisos, o parlamentar recorreu a metáforas sobre carpir roça para defender que a secretaria precisa de comando. A população não precisa de figuras de linguagem, mas de médicos, medicamentos e leitos de UTI que não chegam.
O discurso de indignação tardia escancara a omissão histórica da Câmara Municipal. São os vereadores que deveriam fiscalizar a saúde e cobrar a prefeita, mas preferiram o silêncio conveniente. Agora querem posar de defensores da vida, quando na prática têm sido cúmplices do descaso.
A fala do parlamentar soou mais como desabafo de amigo enlutado do que como postura de fiscal da coisa pública. Quando o drama era coletivo, faltou voz. Quando se tornou pessoal, a indignação finalmente apareceu.
Enquanto isso, a tragédia se repete nas UPAs, nos postos e nos hospitais. Campo Grande sangra sob a omissão de quem deveria representá-la. A indignação dos vereadores é seletiva e chega tarde demais para milhares de famílias que já enterraram suas esperanças.
O estresse que o vereador diz sentir não é nada diante do estresse diário de quem perde tempo, dinheiro e vida tentando ser atendido na saúde pública da Capital. A diferença é que o povo não pode escolher o momento certo para se indignar. A doença não espera o conforto do microfone.