
Os tucanos sul-mato-grossenses, acostumados a sobreviver em meio a crises e revoadas, parecem finalmente ter encontrado um consenso: ninguém quer ver Geraldo Resende no comando do PSDB. A resistência é geral e, pela primeira vez em muito tempo, faz sentido. O temor é de que o deputado federal use a presidência do partido como trampolim para o verdadeiro projeto que o move — não o fortalecimento da sigla, mas a pavimentação da estrada política de sua filha, Bárbara Resende, que já ensaia voo próprio rumo à Assembleia Legislativa.
Não é segredo para ninguém que o deputado tem se dedicado mais à sucessão familiar do que à reconstrução do partido. O PSDB, que tenta desesperadamente evitar o desaparecimento completo, não quer correr o risco de virar um comitê de campanha particular. A sigla, já enfraquecida por debandadas e brigas internas, teme que um comando centrado em interesses pessoais seja o golpe final num partido que, há poucos anos, governava o Estado com folga e protagonismo.
Os tucanos sabem que o partido vive uma encruzilhada. Depois de perder quadros históricos, prefeituras e musculatura eleitoral, o PSDB tenta se reinventar em meio ao esvaziamento. E é justamente por isso que a ideia de entregar a presidência estadual a Geraldo Resende soa como um suicídio político coletivo.
Enquanto o deputado faz planos domésticos, as bases se organizam em outra direção. O nome do deputado estadual Pedro Caravina surge como a alternativa mais equilibrada e, ao mesmo tempo, mais promissora. Experiente, sereno e com bom trânsito entre lideranças municipais, Caravina representa um ponto de consenso em meio ao caos partidário. Sua imagem de gestor técnico e político moderado contrasta com a figura centralizadora e personalista de Resende.
Caravina é visto como o tipo de liderança capaz de reconstruir pontes sem se deixar levar por projetos pessoais. Tem credibilidade junto às câmaras municipais, fala com prefeitos e, ao contrário de muitos tucanos de carreira, ainda tem disposição para andar o Estado e reorganizar diretórios. A boa aceitação do seu nome dentro e fora da legenda reforça a ideia de que o PSDB pode, enfim, respirar um pouco de ar fresco.
Geraldo Resende, por outro lado, enfrenta um desgaste crescente dentro do próprio ninho. A maioria dos tucanos considera sua gestão interina opaca, sem diálogo e com uma clara falta de foco na reconstrução partidária. O deputado, acostumado a mandar em gabinete, não convenceu como articulador político. E a insistência em emplacar a filha apenas reforçou o que já se cochichava nos bastidores: o PSDB, para ele, é apenas um sobrenome com CNPJ.
Não é exagero dizer que o clima é de rebeldia interna. Tucanos históricos, acostumados à liturgia da moderação, hoje falam abertamente em “renovação urgente”. Muitos já migraram ou ameaçam migrar para outras legendas. E quem ficou, quer uma direção que inspire confiança — não uma que pareça balcão de negócios eleitorais.
Enquanto isso, Caravina surge como contraponto à decadência. O deputado estadual, ex-prefeito de Bataguassu, tem perfil de gestor pragmático e discurso sereno. Ganha pontos por não estar envolvido em disputas pessoais e por ser visto como alguém que poderia devolver ao PSDB um mínimo de institucionalidade e coerência. Em meio à bagunça, sua figura simboliza uma espécie de “refundação possível”.
A ironia é que o partido que um dia formou quadros do porte de Reinaldo Azambuja, Marcio Monteiro e Ramez Tebet hoje gasta energia discutindo o destino político de uma herdeira em fase de ensaio. Os tucanos sabem que, se cederem novamente ao personalismo, podem encerrar de vez a história da sigla em Mato Grosso do Sul.
O PSDB precisa decidir se quer ser partido ou patrimônio de família. E, por enquanto, a decisão parece estar sendo tomada com lucidez: Geraldo Resende, não. A legenda precisa de rumo, planejamento e um mínimo de coerência ideológica.
Pedro Caravina desponta como o nome capaz de recolocar o PSDB no mapa político de Mato Grosso do Sul. Sem estrelismo, sem dinastia e sem escândalos. Talvez seja pouco, mas para o partido que já viveu dias de glória e hoje busca apenas sobreviver, é mais do que suficiente.
No fim, a resistência dos tucanos tem razão de ser. Depois de tantos erros e deserções, o PSDB aprendeu — ainda que tardiamente — que nenhuma sigla sobrevive quando o comando serve a um sobrenome e não a um projeto.