Tribunal decide hoje se compra de votos vai continuar impune

Hoje, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul retoma o julgamento que pode entrar para a história política de Campo Grande: o pedido de cassação da prefeita Adriane Lopes (PP) e de sua vice, Camilla Nascimento (Avante), por compra de votos nas eleições de 2024. A sessão, que havia sido interrompida após pedido de vista, será retomada com expectativa e tensão. No banco dos réus, não está apenas um mandato, está o uso da máquina pública como moeda eleitoral.

O primeiro a votar, juiz Alexandre Antunes da Silva, reconheceu a prática ilícita, mas, num exercício de contorcionismo jurídico, livrou a prefeita da condenação. É como admitir o crime, mas se recusar a punir o criminoso. Agora, os demais membros da corte eleitoral terão a chance de reparar o descompasso entre a prova e a impunidade.

Um dos poucos políticos com coragem de chamar as coisas pelo nome, o vereador Jean Ferreira (PT) foi direto: a cassação de Adriane não é só punição, é lição contra o voto de cabresto e o coronelismo eletrônico. “Ela usou práticas repugnantes para se eleger. É preciso dar fim a esse vale-tudo pelo poder”, disparou. O petista parece ser um dos poucos que ainda não trocou a indignação por silêncio ou conveniência.

Nas redes sociais, o clamor popular não foi menos ácido. “Maior operação de compra de votos da história de Campo Grande precisa ser punida pelo TRE!”, escreveu um cidadão. Outro foi mais direto: “Tomara que não comprem a sentença também”, numa referência nada sutil à Operação Ultima Ratio, que revelou um esquema de venda de decisões no Judiciário sul-mato-grossense. Com esse histórico, confiança na Justiça virou luxo.

Enquanto parte da população torce por um desfecho moralizador, a ala evangélica governista segue firme no culto à narrativa divina. “Ninguém derruba aquela que Deus levantou”, comentou uma seguidora, em tom quase bíblico, esquecendo que nem todos os milagres resistem ao artigo 41-A da Lei das Eleições.

O julgamento, que deve contar com os votos de cinco magistrados, pode marcar o fim de um ciclo político sustentado por práticas antigas disfarçadas de fé e marketing. Caso a cassação seja confirmada, será a primeira vez que a Justiça Eleitoral pune com firmeza o uso escancarado do poder econômico em Campo Grande.

A gestão Adriane já vinha colecionando críticas pela inoperância administrativa. Agora, seu mandato pode ser encerrado não por ineficiência — o que já seria motivo suficiente —, mas por fraude. Se o TRE for coerente com as provas, com a legislação e com a sociedade, não haverá outro caminho senão a cassação.

Resta saber se o tribunal vai aplicar justiça… ou fazer mais um daqueles milagres políticos que só acontecem em Mato Grosso do Sul.

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