Saúde agoniza e R$ 156 milhões tomam outro rumo em Campo Grande

No mesmo cenário onde falta soro, seringa e até analgésico nos postos de saúde de Campo Grande, um rastro de cifras milionárias chama mais atenção do que qualquer sirene de ambulância: segundo grave denúncia, a Prefeitura teria desviado mais de R$ 156 milhões do Fundo Municipal de Saúde para cobrir buracos da própria gestão, mais precisamente, contas atrasadas e folha de pagamento. A operação, feita sem autorização legal ou legislativa, configura o que popularmente se chama de “pedalada fiscal”, crime que já derrubou até presidente da República.

A manobra teria ocorrido às vésperas da eleição de 2024, numa tentativa de evitar que o nome da prefeita fosse parar na famosa “lista suja” do Tribunal de Contas do Estado. Se confirmada, a jogada explicaria muita coisa, como a súbita mágica de manter a folha em dia enquanto a população sofria com o colapso do SUS municipal e a falta crônica de medicamentos nas unidades de saúde. O problema? Ao contrário dos truques políticos, a dor da população é real.

De acordo com a denúncia, todo o montante — exatos R$ 156.830.401,28 — foi transferido do Fundo de Saúde entre os dias 23 e 26 de abril de 2024. No Diário Oficial, o destino da verba foi descrito como “despesas de pessoal, relativas ao exercício anterior”. Ou seja, recursos da saúde sendo usados para pagar contas vencidas, sem previsão orçamentária, sem respaldo legislativo, e, claro, sem o menor pudor.

Não por acaso, o silêncio virou política oficial quando parlamentares como Luiza Ribeiro e Dr. Lívio questionaram o destino dessa dinheirama. Nem Rosana Leite, secretária de Saúde, nem Márcia Hokama, da Fazenda, se dignaram a responder com clareza nas audiências públicas da Câmara. Falar de dinheiro desviado da saúde parece ser um tabu maior do que encarar as filas nos postos lotados.

A situação é tão grave que, se confirmada, envolve pelo menos três crimes penais: fraude processual, falsidade ideológica e prevaricação. Isso sem contar a afronta direta à Constituição Federal, que exige legalidade e moralidade nos atos da administração pública. Mas, em Campo Grande, o artigo 37 parece ter virado peça decorativa no preâmbulo do improviso.

É importante destacar que as investigações estão nas mãos do Ministério Público Estadual, do Ministério Público Federal e do Tribunal de Contas do Estado. Mas enquanto os órgãos de controle montam seus relatórios, a população segue montando suas próprias conclusões: como pode faltar tudo na saúde, mas sobrar verba para pagar folha com recursos que deveriam salvar vidas?

A resposta, ainda que não oficial, salta dos números: a crise financeira, tão alardeada pela prefeita, parece ter critério — atinge a base, mas jamais o topo. Faltam remédios, mas não falta caneta para reajustar salários no gabinete. A cidade grita por socorro, mas a prioridade foi salvar a reputação eleitoral, não o atendimento médico.

Ao final, a história expõe mais do que um suposto desvio de recursos, revela a verdadeira prioridade de uma gestão que escolheu esconder a falência da saúde pública embaixo de um recibo de folha salarial. A prefeitura pode até tentar justificar, contornar ou negar, mas enquanto o povo espera atendimento sem solução, o dinheiro da saúde já tomou outro rumo e, ao que tudo indica, não tem retorno.

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