
A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), voltou a vestir a fantasia de gestora responsável e anunciou, com pompa e circunstância, mais uma rodada de “cortes de gastos” nas secretarias municipais. No mundo cor-de-rosa da atual gestão, apertar o cinto virou sinônimo de imprimir menos, beber menos água e apagar a luz mais cedo. É a austeridade seletiva em ação: corta-se onde não dói… no topo.
Segundo o discurso oficial, a segunda fase do “plano de equilíbrio fiscal” visa gerar economia nas chamadas despesas de custeio. Ou seja, a prefeitura decidiu economizar em papel, toner, combustível e copos d’água. Uma espécie de reforma administrativa gourmet, onde os alvos preferenciais são os insumos de escritório, não os contratos milionários ou os cargos comissionados, pois esses seguem, como sempre, intocados.
Curiosamente, a prefeita fez questão de afirmar que os servidores “não estão neste bojo”. E talvez seja verdade, afinal, o bojo que interessa parece mesmo ser outro: o das obras superfaturadas, das licitações silenciosas e dos empréstimos cada vez mais volumosos com o selo “obras estruturantes”. Um modelo de gestão que, para funcionar, exige cortar do cafezinho para continuar financiando o desperdício.
Adriane também celebrou a adesão ao Plano de Equilíbrio Fiscal do Governo Federal. Na prática, isso significa que a Prefeitura, além de confessar que está quebrada, agora precisa seguir uma cartilha rígida para ter direito a novos empréstimos. Para a população, isso se traduz em serviços enxugados, promessas recicladas e um futuro hipotecado em nome do “reajuste fiscal”.
A cereja do bolo é a nova LDO sancionada nesta semana, com previsão orçamentária de R$ 6,66 bilhões para 2026, valor simbolicamente satânico para uma gestão que mais parece uma penitência coletiva. A arrecadação caiu? Sim. A culpa é do Governo Federal? Sempre. Mas os gastos com publicidade institucional, assessorias jurídicas externas e contratos obscuros seguem firmes e fortes.
É curioso que uma prefeita que diz estar cortando tudo o que pode, nunca mencione revisar contratos superfaturados, reavaliar obras inacabadas ou abrir a caixa-preta dos convênios de fachada. A prioridade é sempre cortar no varejo e discursar no atacado. Enquanto isso, a cidade continua atolada no mato, nas crateras e nas filas da saúde.
O que se vê, mais uma vez, é um espetáculo de marketing mal ensaiado. Um teatro de economia onde se finge fazer muito, cortando o que não pesa no topo da planilha. Mas que serve, sim, para montar uma narrativa, aquela em que a prefeita aparece como uma heroína da responsabilidade fiscal, enquanto o caos administrativo segue intacto.
A austeridade da prefeita parece não alcançar as emendas de última hora, os aditivos generosos e os gastos inexplicáveis com eventos protocolares. Cortar
energia elétrica é fácil. Difícil é desligar os holofotes da autopromoção, mesmo quando a cidade clama por gestão de verdade.
E assim segue Campo Grande: à meia-luz, imprimindo menos, economizando na água e se afogando no discurso vazio de uma administração que, ao que tudo indica, está muito mais preocupada com a aparência de governar do que com a dura realidade de quem depende da Prefeitura para viver com dignidade.