Prefeita decreta sacrifício coletivo e salva apenas o próprio contracheque

A matemática de Adriane Lopes virou um enigma digno de manual de ilusionismo. A prefeita que proibiu adicionais, suspendeu promoções e negou reajuste linear aos servidores viu a folha de pagamento aumentar R$ 122 milhões em apenas oito meses. Enquanto a maioria amarga o congelamento desde 2022, a caneta da prefeita fez milagres para engordar os salários do alto escalão.

De janeiro a agosto, o gasto com pessoal subiu 5,86%. O número não fecha com a propaganda de austeridade repetida à exaustão pela prefeitura. E a plateia de vereadores, que assistiu à prestação de contas, não conseguiu esconder a surpresa diante de uma mágica contábil que só beneficia quem está no topo da pirâmide.

A secretária de Finanças, Márcia Hokama, que deveria esclarecer os números, esqueceu de mencionar o próprio reajuste de 63,7% em abril, quando passou a receber quase R$ 20 mil. Detalhe que faz diferença em tempos de decreto de contenção. Adriane, que posa como exemplo de fé e moralidade, garantiu para si mesma um aumento de 26,7%, elevando o salário para quase R$ 27 mil.

A vice-prefeita Camilla Nascimento também entrou na onda do milagre salarial. O subsídio dela saltou 40% em abril, enquanto a maioria dos servidores foi condenada ao jejum de correção inflacionária. Camilla, que também acumula o cargo de secretária de Assistência Social, ganhou de presente mais R$ 6,3 mil no vencimento.

Para justificar o inexplicável, Márcia culpou os guardas municipais, os professores e até os agentes de saúde. Como se os aumentos de categorias essenciais fossem responsáveis por inflar a folha. É sempre mais fácil jogar a conta nas costas de quem está na ponta do serviço público do que assumir que a farra começou dentro do próprio gabinete.

Nem mesmo os aposentados escaparam da culpa. Segundo a secretária, a paridade e a integralidade são vilãs do orçamento, quando na verdade se trata de direitos conquistados. O discurso tenta transformar conquistas históricas em inimigos da gestão, numa inversão de valores que beira o cinismo.

A narrativa oficial tenta colar que a prefeitura não tem recursos. Mas os números mostram que o decreto de contenção só serve para estrangular o funcionalismo de base e blindar os altos salários. O famoso “corte de gastos” virou uma tesoura seletiva, que nunca alcança quem decide e sempre recai sobre quem executa.

Enquanto isso, os 30 mil servidores municipais acumulam perdas inflacionárias desde que Adriane assumiu. A reposição constitucional virou promessa esquecida, e o desrespeito à lei transformou-se em política permanente. Para o alto escalão, há reajuste. Para o restante, sobra a penitência.

E para coroar o teatro, Adriane prorrogou o chamado decreto da maldade por mais 90 dias. O objetivo declarado é economizar. O real é manter os cortes que não a atingem em nada, mas que corroem a renda de milhares de famílias.

A prefeitura que se gaba de cortar gastos é a mesma que aumenta a folha em ritmo acelerado. E a prefeita que se apresenta como exemplo de virtude é a mesma que garantiu a si e aos seus aliados reajustes generosos. Afinal, o aperto é só para os outros.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br