
A prefeita Adriane Lopes (PP) segue encontrando espaço no orçamento — não para a saúde, nem para o tapa-buracos, mas para agradar aliados políticos. Mesmo sob um decreto de contenção de despesas, a gestora reajustou em 24,9% um contrato milionário com o Consórcio Pantanal Engenharia, elevando o valor de R$ 12,4 milhões para R$ 15,5 milhões. O contemplado? Raphael Eduardo de Melo e Silva, empresário do Avante, partido que, por coincidência (ou não), apoiou a reeleição da prefeita.
O reajuste, oficializado em pleno Diário Oficial, soa como um escárnio diante do cenário de terra arrasada que assola a Capital. Afinal, se não há dinheiro para consertar as ruas, comprar remédios ou sequer conceder o reajuste linear aos servidores públicos pelo terceiro ano consecutivo, de onde brotaram esses R$ 3,1 milhões extras?
A justificativa não veio, mas a cronologia entrega. O contrato original foi firmado há pouco mais de sete meses, em dezembro de 2024. E, mesmo com a prefeitura jurando austeridade desde março, a caneta municipal parece ter perdido o freio quando se trata de premiar os de sempre. A Objetiva Projetos e Serviços, empresa do empresário mineiro Raphael Eduardo, ex-candidato a vice-prefeito de Brumadinho, integra o consórcio favorecido. Detalhe: o Avante de Raphael é o mesmo da vice-prefeita Camilla Nascimento, braço direito de Adriane.
O que impressiona é a habilidade da prefeita em aplicar a matemática política com tanta destreza: para os aliados, somam-se milhões; para o povo, subtraem-se remédios. A própria gestão admitiu a falta de 44 tipos de medicamentos nas unidades de saúde, como mostrou recentemente reportagem da TV Morena. Mas não há crise que resista ao compadrio, desde que o cheque tenha o destinatário certo.
Adriane ainda teve a audácia de vir a público nesta semana para dizer que a crise obrigou cortes no orçamento da saúde e da cultura. Ora, que crise é essa que some quando se trata de engordar contratos de parceiros políticos? A gestão da prefeita virou uma espécie de milagre contábil: falta tudo para todos, menos para os escolhidos.
E para completar o enredo tragicômico, vale lembrar que a própria Adriane e seus secretários também tiveram reajustes salariais generosos, de até 159%. A única coisa que não sobe nessa cidade é a qualidade de vida da população.
Se a crise de fato existe, e tudo indica que sim, ela é, no mínimo, seletiva. Porque quando o assunto é beneficiar aliados políticos, a tesouraria da prefeitura funciona melhor do que qualquer sistema de saúde que já passou por lá. Campo Grande segue à deriva, com buracos nas ruas, nos postos de saúde e na ética administrativa. Mas nos contratos bem amarrados, não falta absolutamente nada.