
Depois de meses de suspense, manobras jurídicas e silêncio institucional, o dia que promete entrar para a história de Campo Grande finalmente chegou: nesta terça-feira (20), às 17h, o Tribunal Regional Eleitoral julga o pedido de cassação da prefeita Adriane Lopes (PP) e de sua vice, Camilla Nascimento, por compra de votos nas eleições de 2024. E, ao que tudo indica, o espetáculo político vai entregar tudo: provas, confissões disfarçadas e, quem sabe, o desfecho de um mandato marcado pelo colapso ético.
A denúncia foi feita pelo PDT e Democracia Cristã e já carrega o parecer favorável do procurador regional eleitoral, Luiz Gustavo Mantovani. Para ele, os elementos constantes nos autos, que incluem vídeos, documentos e até transações via PIX, são suficientes para cassar o mandato da prefeita e torná-la inelegível até 2036. Um detalhe que não pode passar batido: Adriane venceu a eleição com apenas 12 mil votos de diferença, o que dá uma dimensão do peso que o voto comprado pode ter tido no resultado final.
O Ministério Público Eleitoral não poupou palavras. Classificou as condutas denunciadas como de “alta perniciosidade”, com efeitos graves para a democracia. “Mácula repulsiva da corrupção”, escreveu o procurador, como quem antecipa o tom do julgamento que se aproxima. A defesa, por sua vez, preferiu recorrer ao velho enredo da “inocência por desconhecimento”: não nega a compra de votos, apenas alega que Adriane não sabia de nada. Simples assim.
A narrativa, porém, parece frágil demais para sustentar uma tese de absolvição. Afinal, a prefeita foi a principal beneficiária dos supostos atos ilícitos. E, num sistema eleitoral onde até o cheiro de abuso pode desequilibrar o jogo, a ignorância conveniente não deve servir de salvo-conduto.
O julgamento será comandado por sete membros da Corte Eleitoral, incluindo dois desembargadores e um juiz federal. Entre eles, Alexandre Antunes da Silva, relator do processo, e Carlos Eduardo Contar, ex-presidente do TJMS. Todos terão diante de si um dos casos mais emblemáticos da história recente da política local — e uma chance única de dizer se o voto em Campo Grande ainda vale alguma coisa.
Caso a cassação seja confirmada, será a primeira vez que um prefeito eleito diretamente na capital perde o cargo por captação ilícita de sufrágio. E ironicamente, será também o fim melancólico da passagem da primeira mulher eleita ao cargo — não por machismo, mas por corrupção mesmo.
O julgamento desta terça tem potencial para redefinir os rumos da política sul-mato-grossense. Se Adriane for cassada, abre-se caminho para novas eleições e, talvez, para um mínimo de oxigênio institucional. Se for absolvida, o recado estará dado: pode tudo, até PIX na boca de urna.
Para além das consequências jurídicas, o que está em jogo é a confiança do eleitor. A ideia de que a urna ainda vale mais que o envelope. De que mandato não se compra por aplicativo. E de que prefeito não pode ser o beneficiário impune de um crime eleitoral.
Amanhã, o TRE-MS terá a chance de mostrar se está à altura da história ou se será apenas mais um capítulo da velha novela da impunidade travestida de legalidade. Prepare-se, Campo Grande: o grande dia chegou.