
Com a caneta em punho e a justificativa pronta na ponta da língua, a prefeita Adriane Lopes (PP) emplacou mais um pacote de austeridade que penaliza Campo Grande sob o disfarce de responsabilidade fiscal. A Câmara até votou, mas o roteiro, escrito e dirigido pelo Executivo, escancara a obsessão de Adriane por amarrar ainda mais os recursos públicos — só não os que favorecem seus aliados, claro.
Na terça-feira, a prefeita levou à Câmara Municipal três projetos que impõem teto de gastos, leilão de pagamentos com fornecedores e centralização da gestão financeira em uma só secretaria. E pasmem: em menos de seis horas, tudo estava aprovado. Um atropelo legislativo digno de regimes autoritários, não de uma capital democrática. O que era para ser amplamente debatido com a sociedade, foi empurrado goela abaixo com agilidade espantosa.
Um dos pontos mais escandalosos do pacote, e talvez o mais cruel, é a criação de um leilão para pagamento de dívidas atrasadas com fornecedores. A lógica? Quem der o maior desconto, recebe primeiro. É isso mesmo: fornecedores que já estão há quatro, seis, até dez meses sem ver a cor do dinheiro terão que abrir mão de parte do valor para, talvez, receber algo. E não será à vista, mas em parcelas! Isso não é só vergonhoso. É criminoso.
Imaginemos o cenário real de um fornecedor: já pagou os produtos, os impostos, o transporte, os funcionários, as despesas fixas. Provavelmente já teve que pegar empréstimo com juros para manter as contas em dia. E agora, com a bênção da Câmara e a assinatura de Adriane, ainda precisa “dar desconto” se quiser ver algum centavo. Se isso não é caso de polícia, é o quê?
Enquanto a prefeita impõe esse modelo de chantagem institucionalizada, o discurso oficial continua sendo o da “responsabilidade fiscal”. Mas a realidade mostra que os cortes e sacrifícios recaem sempre sobre os mais fracos. Os grandes fornecedores, os do círculo íntimo do poder, nem sentem o baque. E os pequenos, ah, esses pagam até para tentar receber.
O teto de gastos aprovado limita investimentos e amarra ainda mais a já engessada máquina pública. A desculpa é se adequar ao Programa de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF), mas ninguém menciona que a cidade já sofre há três anos com ausência de reajustes aos servidores, corte de gratificações e serviços públicos à míngua.
A centralização da gestão financeira, agora toda sob o domínio da Secretaria de Fazenda, chefiada por Márcia Hokama, é outro golpe silencioso. Cada secretaria perde autonomia, e o dinheiro passa a girar em torno do núcleo duro da prefeita. Com a criação do sistema de Conta Única, até o superávit de autarquias e fundações poderá ser sugado pelo Tesouro Municipal, e para usos nada transparentes, diga-se de passagem.
E como cereja desse bolo amargo, ainda há a hipocrisia institucional: enquanto cobra austeridade do povo e dos fornecedores, a prefeita mantém salários milionários de aliados, paga bônus obscuros a secretários e concunhadas, e
distribui privilégios em silêncio, ou melhor, em sigilo. E o povo? Esse segue pagando a conta desse “equilíbrio fiscal” com juros, correção e muita paciência.
Na prática, o novo pacote de Adriane não é um plano de austeridade. É uma condenação à mediocridade, travestida de técnica, empurrada goela abaixo de uma cidade cada vez mais sufocada pela própria prefeitura.