Lixo, dívidas e caos: Campo Grande vive o colapso dos serviços básicos

Quando o deputado estadual Pedro Pedrossian Neto precisou encenar um diálogo para chamar atenção sobre o caos na limpeza urbana de Campo Grande, o roteiro já estava pronto, e escrito pela própria incompetência da gestão municipal. Segundo o parlamentar, a prefeitura deve mais de R$ 40 milhões à Solurb, empresa responsável pela coleta de lixo, e já acumula quatro faturas em atraso. O risco é real e a qualquer momento a cidade pode ficar coberta de lixo, literalmente.

O vídeo publicado nas redes sociais começa com uma dose de ironia. Pedrossian pergunta, em tom teatral: “É da Sulurb? É? Estão devendo R$ 40 milhões pra vocês?”. E o humor acaba aí. A encenação dá lugar à denúncia de uma prefeitura que transformou o descontrole financeiro em política pública.

O parlamentar alerta que a interrupção da coleta de lixo é apenas uma das consequências do colapso administrativo. Os serviços de capina, roçada e tapa-buracos já estão em estado de penúria. A cidade, que deveria estar cuidada, anda com cara de abandono: buracos por toda parte, mato tomando calçadas e bairros inteiros fedendo à desatenção.

E a crise não para no lixo. Segundo o deputado, a prefeitura também patina em dívidas com a Santa Casa e o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo. O resultado é um efeito dominó de precarização porque sem pagamento, os prestadores param; parando, o serviço colapsa; e quem paga o preço é sempre o cidadão.

O protesto convocado para esta terça-feira promete dar rosto e voz à indignação popular. Servidores, moradores e representantes de bairros devem se reunir em frente à prefeitura para exigir transparência e explicações sobre o sumiço do dinheiro. Afinal, como a capital chegou a dever tanto e entregar tão pouco?

A resposta, contudo, parece difícil até para os próprios gestores. A prefeita Adriane Lopes, que já coleciona polêmicas com cortes salariais, licitações suspeitas e decretos de contenção seletiva, não explica o rombo, não assume o problema e tampouco apresenta plano de socorro. A cidade está no limite, e a gestão segue posando para fotos sob luz de Natal enquanto o lixo acumula nas esquinas.

Se a situação continuar assim, Campo Grande vai precisar mais de trator do que de secretário. O lixo não é apenas o que se vê nas ruas; é o reflexo de uma prefeitura que perdeu o controle das contas e do rumo. A limpeza urbana virou metáfora da própria administração: quanto mais tenta varrer os problemas pra debaixo do tapete, mais eles aparecem, e com cheiro cada vez mais forte.

O vídeo de Pedrossian é só o espelho de uma cidade cansada de assistir à própria decadência. A diferença é que, desta vez, a encenação não é política, é sobrevivência. O cenário é o mesmo de sempre: contas atrasadas, promessas rasgadas e uma população que já não sabe se ri, chora ou se segura o nariz.

Enquanto a prefeitura coleciona notas fiscais em atraso, a esperança dos campo-grandenses se junta ao entulho nas calçadas. E se a Solurb realmente cruzar os braços, talvez o mau cheiro ajude a lembrar que, em Campo Grande, o descaso não é problema de limpeza, é de gestão.

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