Em discurso tóxico, Lídio Lopes transforma escândalo em estratégia e eleitor em vilão

Num discurso que parece ter saído diretamente do manual do cinismo político, o deputado estadual Lídio Lopes (sem partido) decidiu inovar na arte de distorcer a realidade: após o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul reconhecer, por 5 votos a 2, a prática de compra de votos na campanha que reelegeu sua esposa, a prefeita Adriane Lopes (PP), o parlamentar resolveu culpar… os eleitores.

Sim, você leu certo. Lídio, um dos principais articuladores da campanha da esposa, usou a tribuna da Assembleia Legislativa para “parabenizar” o TRE-MS pela “justiça” de manter o mandato de Adriane, mesmo após cinco magistrados afirmarem, com todas as letras, que houve compra de votos, com direito a vídeos, depoimentos e PIXs como prova. A nova tese do deputado: já que houve quem vendeu o voto, são esses eleitores que devem ser punidos. O político, claro, permanece puro e injustiçado. Um verdadeiro herói da pós-verdade.

No melhor estilo “acusa quem se defende”, Lídio exigiu mudança na legislação eleitoral para punir quem vende votos, ignorando convenientemente que a lei atual já pune ambos os lados, mas que no caso em questão, quem praticou a corrupção eleitoral foi justamente o grupo político que ele representa. O eleitor que recebe R$ 100 por um voto compra dignidade ou sobrevive. Já quem financia a compra com estrutura de campanha, benesses públicas e acordos escusos, perpetua a miséria eleitoral.

É preciso ter muito estômago, ou muito desprezo pela inteligência da população, para ignorar que o próprio Ministério Público Eleitoral emitiu parecer favorável à cassação de Adriane e da vice-prefeita Camilla Nascimento, justamente por considerar “contundentes” as provas de compra de votos. Mas, no mundo de Lídio, só importa o parecer do procurador quando é favorável. O resto é silêncio ou seletiva indignação.

Se não bastasse a desfaçatez, o deputado ainda debochou dos adversários políticos, dizendo que é preciso “aceitar que dói menos” e “deixar as mulheres trabalharem”, como se o debate fosse sobre gênero, e não sobre a destruição da moralidade pública. Esquece-se ele que a mulher que ele defende não representa todas as mulheres, apenas a própria conveniência de um projeto de poder sustentado pelo mais antigo método político: a compra da vontade popular.

Na lógica torta de Lídio, a justiça foi feita. Afinal, não é preciso punir quem compra votos se podemos culpar o eleitor pobre. É o velho truque da elite política: empurrar a culpa para baixo, criminalizar a miséria e manter a estrutura que garante vitórias sujas com aparência de legalidade.

Se o Congresso Nacional seguir os conselhos do deputado, em breve veremos propostas para criminalizar o eleitorado e blindar de vez os caciques. Porque no Brasil do absurdo, o voto comprado é crime do eleitor, e a impunidade, privilégio do eleito.

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