
Depois de meses de reviravoltas, embargos, omissões e silêncios constrangedores, finalmente o processo que pede a cassação da prefeita Adriane Lopes e de sua vice, Camila Nascimento, está prestes a subir para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E agora sim, o jogo muda. Sai o clima de compadrio regional, entram os rigores da corte máxima da Justiça Eleitoral brasileira. Brasília que nos julgue.
No TRE-MS, o roteiro seguiu o de sempre: uma maioria confortável absolveu a chapa, ignorando pareceres da Procuradoria Eleitoral e evidências gritantes de abuso de poder. Nem mesmo as denúncias de compra de votos e o uso político da religião foram suficientes para convencer parte da corte. O clima parecia mais de arquibancada aliada do que de tribunal imparcial.
Mas os embargos foram julgados e o processo, finalmente, tomará o rumo que deveria ter tomado há meses. E não adianta mais torcer para o processo escorregar na gaveta de ninguém. O TSE não tem parente em cargo de confiança, nem vínculo emocional com palanques locais. Lá, não se julga com base em quem indicou, mas no que está nos autos — ao menos, é o que se espera.
Agora, os holofotes saem do conforto do ambiente doméstico e se voltam a Brasília. É lá que os ministros — alguns dos quais já conhecem bem o estilo “criativo” de certas gestões municipais — vão dizer se houve ou não crime eleitoral. E o que antes era protegido por conveniências políticas agora será exposto ao rigor técnico-jurídico.
Não custa lembrar que, mesmo após a absolvição no TRE, o Ministério Público Eleitoral seguiu firme no pedido de cassação. E quando até a Procuradoria, que costuma ser mais contida, eleva o tom, é porque o cheiro de irregularidade passou do tolerável. Se tudo isso ainda for considerado “normal”, melhor reescrever o Código Eleitoral.
Do lado da acusação, nomes de peso: um ex-ministro do TSE, primo do vice-presidente da República, e o ex-coordenador jurídico da campanha de Rose Modesto, principal adversária de Adriane nas urnas. Coincidência ou não, o processo carrega não apenas fatos, mas também os ecos de uma eleição que nunca desceu pela garganta de muita gente.
A estratégia da defesa tem sido repetir, exaustivamente, que já houve absolvição. O problema é que absolvição com gosto de blindagem não convence em Brasília. No TSE, o ambiente é outro: menos político, mais institucional; menos camaradagem, mais jurisprudência. E a história mostra que o TSE já reverteu muitas decisões regionais que cheiravam mais a conveniência do que a justiça.
Campo Grande, que esperava por um julgamento de verdade, agora pode ter. Sem dedo no julgamento, sem parentes no plenário, sem acordos de bastidor. É hora de os fatos falarem por si, e de os votos não dependerem da cor do adesivo na campanha passada.
Se vai haver cassação ou não, ninguém pode cravar. Mas uma coisa é certa: agora é pra valer. O palco é Brasília, o processo é público, e a balança da Justiça não carrega bandeira partidária. Pelo menos, não deveria. Que venha o julgamento.