
Os servidores municipais de Campo Grande receberam mais uma “bênção” da gestão Adriane Lopes (PP): o congelamento oficial dos salários por tempo indeterminado. Sim, agora é lei. Publicada em edição extra do Diário Oficial, a nova norma impede aumentos acima da inflação e suspende as progressões por tempo de serviço. E o melhor (ou pior): isso pode durar dois anos, cinco, quem sabe mais. Vai depender, segundo a própria prefeita, da “recuperação da capacidade de investimento” do município, ou seja, um horizonte tão incerto quanto o retorno da dignidade ao serviço público.
A justificativa é a adesão ao Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF), um pacote de austeridade do Governo Federal que exige contenção máxima de gastos. Para aderir ao plano e poder pedir novos empréstimos com aval da União, a Prefeitura decidiu sacrificar o servidor. Os reajustes, já inexistentes desde 2021, agora são oficialmente proibidos. E não para por aí: a progressão automática, aquela pequena esperança de valorização a cada cinco anos de serviço, também foi para o congelador.
Adriane Lopes, em tom técnico e quase poético, anunciou que não há previsão de aumento para este ano, nem garantia alguma para o próximo. “Pode durar um ano, pode durar dois”, disse. Ou seja, pode durar o quanto for conveniente. Enquanto isso, os servidores seguem assistindo ao próprio poder de compra derreter com o IPCA.
Mas nem tudo está congelado na gestão Adriane. O salário da prefeita, por exemplo, segue aquecido. Desde abril, ela passou a receber R$ 26,9 mil. Em 2026, o valor salta para R$ 31,9 mil, e em 2027, para R$ 35,4 mil. Isso mesmo: quem aplica o arrocho no povo, recebe reajuste robusto por decisão judicial e sem qualquer constrangimento.
E como se não bastasse, a prefeitura resolveu inovar na engenharia orçamentária ao criar o Sistema Financeiro de Conta Única, que centraliza todos os recursos na Secretaria Municipal de Fazenda. Isso inclui o superávit de autarquias e fundações, que agora poderá ser drenado para o Tesouro Municipal. É o princípio da “unidade de caixa”, mas poderia muito bem se chamar
“tudo nas mãos da prefeita”.
Com essa concentração, até o dinheiro que sobra do ano anterior nas fundações
poderá ser usado como recurso ordinário. Claro, desde que não sejam convênios ou previdência. A justificativa? Organizar as contas. Na prática? Abrir um cofre único e sem transparência para que o núcleo duro da gestão decida tudo, com a secretária Márcia Hokama no comando das finanças, sob os olhos complacentes (ou cúmplices?) da prefeita.
Enquanto isso, os servidores, que há mais de três anos não veem um centavo de aumento, são convidados a compreender a “necessidade de equilíbrio fiscal”. Um convite irônico, sobretudo em uma cidade com contratos inflados, nomeações políticas e uma folha de pagamento que continua contemplando os amigos do poder.
A promessa de investimento futuro — R$ 154 milhões a partir de 2026 — parece mais uma peça publicitária do que um compromisso real. Afinal, quem garante que os servidores estarão em condições físicas e emocionais de continuar sustentando uma máquina pública que não os valoriza?
E se tudo isso não fosse suficiente, a gestão Adriane ainda aposta nos leilões para pagar fornecedores: quem aceitar o maior desconto, recebe primeiro. Um Black Friday da inadimplência institucional, com selo de aprovação da nova lei municipal.
No fim, a gestão da “austeridade seletiva” segue firme, com cortes para quem trabalha e reajustes para quem governa. Em Campo Grande, o futuro chegou, mas só para alguns.