Café amargo na véspera da cassação

Na tentativa desesperada de exibir prestígio político na véspera do julgamento que pode cassar seu mandato, a prefeita Adriane Lopes (PP) preparou um “Café com a Bancada” nesta segunda-feira (19), mas acabou servindo constrangimento com torradas frias. Dos 11 parlamentares federais de Mato Grosso do Sul, mais da metade simplesmente ignorou o convite, incluindo petistas, bolsonaristas e até sua suposta madrinha política, a senadora Tereza Cristina (PP), que sequer apareceu para dar um bom dia.

Com o Tribunal Regional Eleitoral prestes a decidir se a eleição de Adriane será anulada por compra de votos, o evento mais parecia uma tentativa de coreografia de força política em pleno pânico pré-julgamento. Mas a plateia vazia deixou claro que o prestígio da prefeita está tão abalado quanto a malha viária que ela jura querer recapear.

Entre os ausentes estavam os deputados federais Beto Pereira (PSDB), Vander Loubet e Camila Jara (PT), além dos bolsonaristas Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira (PL). Justo os extremos ideológicos, que desta vez encontraram um ponto em comum: não dar palco para uma prefeita à beira do abismo eleitoral. Tereza Cristina, que foi promovida durante meses como a grande fiadora política de Adriane, também preferiu o silêncio constrangedor à foto institucional.

Compareceram apenas os fiéis de sempre: Dr. Luiz Ovando (PP), que se firma como o porta-estandarte da lealdade cega; Dagoberto Nogueira e Geraldo Resende, do PSDB; além dos senadores Nelsinho Trad (PSD) e Soraya Thronicke (Podemos).

No papel, o café era para discutir R$ 541 milhões em projetos de pavimentação e outros R$ 40 milhões em recapeamento. Na prática, foi uma última cartada para tentar mostrar musculatura política antes que a Justiça Eleitoral reveja os “resultados” de 2024. Difícil falar de credibilidade quando se está às vésperas de responder por ter comprado votos com PIX.

Adriane discursou sobre construir uma “Campo Grande mais humana”, enquanto ruas esburacadas, obras paradas e escândalos não resolvidos continuam sendo a realidade cotidiana do campo-grandense. A prefeita até tentou mobilizar emoção ao falar que pavimentação “impacta na autoestima das comunidades”. Pena que a autoestima institucional já anda rebaixada faz tempo.

A ausência de parlamentares reforça o isolamento político que Adriane tenta disfarçar com sorrisos e planilhas de asfalto. O recado da bancada foi claro: ninguém quer ser associado ao naufrágio anunciado de uma gestão sob suspeita, e que pode virar estatística eleitoral.

Enquanto isso, as obras que a prefeita promete com entusiasmo já foram prometidas antes, interrompidas após as eleições e agora ressurgem como salvação às pressas. Mas a cidade parece cansada de maquiagem em véspera de sentença.

A depender do TRE, o café de segunda pode ter sido o último encontro institucional com Adriane no comando da Prefeitura. E mesmo que escape da

cassação, a prefeita já experimenta o sabor de um isolamento político que nem açúcar no café consegue disfarçar

Hoje é dia de julgamento. E se a ausência já fala muito, o silêncio constrangido de aliados às vésperas do veredito foi quase uma antecipação do que pode estar por vir: fim de mandato com gosto de rejeição e cheiro de café requentado.

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