
A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), acaba de renovar por mais 90 dias o famigerado decreto de “corte de gastos”, aquele que congelou salários dos servidores e prometia economia de R$ 140 milhões, mas que até agora entregou muito discurso e pouco resultado. Com o novo decreto publicado nesta segunda-feira (30), a gestão admite, nas entrelinhas, que falhou em alcançar a meta. A economia real? R$ 19 milhões, segundo a própria prefeita — número bem distante do anunciado com pompa em março.
É curioso observar que, apesar do discurso de contenção, o salário da própria Adriane subiu. E subiu bonito. De R$ 21,2 mil para R$ 26,9 mil em abril, com previsão de chegar a R$ 35,4 mil em 2026. Tudo isso enquanto os servidores da base, que fazem a máquina pública funcionar, seguem sem reajuste há três anos. Mas calma: é tudo “pela responsabilidade fiscal”, diria o release oficial.
A austeridade seletiva da gestão também incluiu a devolução de “mais de cinco imóveis” alugados, o que teria gerado uma economia de quase R$ 1 milhão. A conta é simples: corta-se café e papel do almoxarifado, congela-se salários de quem ganha pouco, e pronto, temos um milagre fiscal em curso. Pelo menos no papel.
O problema é que, ao mesmo tempo em que exigia renegociação de contratos com prestadores de serviço e impunha arrocho a todas as secretarias, a prefeitura reajustava, sem cerimônia, dez contratos de manutenção da iluminação pública, todos no teto legal de 25%. E o mais interessante: com data retroativa, valendo a partir de fevereiro, o que escancara que o tal “corte de gastos” foi mais simbólico que prático.
Só nesses reajustes, Campo Grande engordou os contratos em mais de R$ 7,7 milhões. Tudo isso enquanto a inflação acumulada do período era de modestos 5%, segundo o IBGE. A desculpa? “Sobra” dinheiro da iluminação pública. Um luxo raro em tempos de crise, mas que parece beneficiar sempre os mesmos.
Segundo dados da própria Secretaria de Finanças, a arrecadação da tarifa de iluminação pública saltou de R$ 153 milhões, em 2023, para quase R$ 197 milhões em 2024, um aumento de 28,2%, bem acima de qualquer índice oficial de inflação. E menos da metade desse valor é, de fato, repassado à Energisa. O resto ilumina contratos generosos.
Enquanto isso, a base do funcionalismo amarga o congelamento, a saúde enfrenta falta de insumos e a população continua pagando a conta em todos os sentidos, inclusive literalmente, na fatura de energia. A chamada “revisão de contratos” virou, na prática, um salvo-conduto para reajustes camaradas.
A gestão Adriane Lopes segue vendendo a imagem de uma administração técnica, moderna e eficiente. Mas a realidade é outra: um teatro orçamentário em que se finge cortar para poder aumentar, e onde o discurso da responsabilidade fiscal esconde a prática da conveniência seletiva.
É preciso coragem para cortar na própria carne, e essa coragem definitivamente não se encontra no gabinete da prefeita. O que se vê é uma gestão que impõe
sacrifícios aos de baixo enquanto garante conforto e reajustes generosos aos de cima.
A renovação do decreto por mais três meses não é uma medida de austeridade: é a confissão de que a gestão não consegue — ou não quer — resolver a crise com justiça. E como sempre, quem paga a conta da encenação é o contribuinte.